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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Devaneios | Sobre decotes profundos e liberdade

Os decotes profundos e uma vida sem soutien não são para todas. Pronto. Tenho dito, repito, e as grandes defensoras de uma emancipação do peito livre podem parar de ler aqui e continuar a divagar por outros cantos da vasta web, que aqui carregamos o estandarte da igualdade de género, sim, mas, convenhamos, que também somos livres para nos incomodarmos com o deselegante e o feio. E, vejamos, se push-ups, aros e wonderbras, ou a falta deles, tivesse alguma relação com a consciência de género e a emancipação feminina, quão melhor seria o mundo (dada a quantidade de gente que vejo que não usa o dito suporte como deve ser).

Há peitos, ou vales abismais (de grandes e descaídos, de todas as idades – que não é coisa de mulher “madura”, desenganem-se) que não são para serem partilhados com os restantes mortais assim, sem aviso, com um decote que nunca mais acaba. Pelo menos não sem a consciência que vão atrair olhares (o meu atraem com certeza) pelos piores motivos e não, não valoriza em nada um busto feminino, pelo contrário. Da mesma forma que também não são comummente apreciadas (pelo contrário) tshirts em V nos homens com pelinhos saltitantes e desorganizados, nem lycras justinhas e transparências a qualquer um que não seja o Daffyd Thomas, do Little Britain. Nem calções minúsculos a quem não tiver as pernas da Kate Moss ou com a “polpinha” (como afectivamente lhe chama o espécimen masculino desta casa) do rabinho a espreitar lá por baixo, tal qual prisioneiro a planear a sua fuga.

Gosto de curvas, e muito. Mas também gosto que elas sejam tratadas com carinho, valorizadas, emancipadas sem perderem o encanto. Isso é possível. A indústria da moda, especialmente das grandes multinacionais, não está adaptada a todos os estilos de corpo. O padrão é bem simplificado e direccionado. Mas mesmo assim há como encontrar determinados modelos que favorecem o corpo feminino e o tornam mais bonito e elegante. E olhem que não sou nem fashionista, nem muito dada a tendências, nem tenho um guarda roupa cheio. Portanto, as exigências são realmente básicas (para mim, são minhas, cada um tem as suas).

Atenção, e isto também há que ser dito, antes que me caiam em cima, sou inclusivamente a favor da liberdade em (quase) tudo, inclusivamente de se vestir o que quiser, sempre consciente do efeito que se causa, positivo ou negativo, da mesma forma que, pelo menos sem ofender ninguém, temos o direito (neste caso meu, nesta página, e de quem comentar por aqui), de opinar e manifestar a vergonha alheia (que é coisa para me incomodar horrores) quando algo nos afecta. Sou totalmente a favor da troca de opiniões, mesmo calorosas, e isso alenta o meu espírito. Ao contrário do que muito se pensa, e pouco se compreende, gosto muito que cada um defenda o seu ponto de vista, de forma assertiva, com asserção, argumentando com informação válida, sem que, no final, alguém seja obrigado a se submeter ao outro ou que a apatia vença (gente blasé incomoda-me, confesso). Seria efectivamente uma maçada se pensássemos e fôssemos todos iguais. Um "admirável mundo novo" nunca seria para mim. Disso tenho a certeza.   

quinta-feira, 24 de julho de 2014

*TILT!*

Lembram-se, naqueles jogos de pinball, de quando se tentava "influenciar" o curso da bola, de modo a que ela não caísse, nem perdêssemos a vez? Aparecia um grande TILT e o jogo travava. 

Tenho a sensação que é isso que o meu cérebro faz quando o forço a ler textos sem coerência, sem coesão, completamente desorganizados e sem ponta por onde se lhes pegue. O esforço que faço para extrair dele pontos e não cair no vazio é impressionante; ele treme e trava. *Caramba!*

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Sou esquisitinha, sou! # 4

Não gosto de invertebrados. Não dos do chão, animais, que rastejam pela sobrevivência, por mais feios que sejam, mas daqueles que, em duas pernas, se erguem de forma escorregadia, adaptando a sua forma à dos demais, que querem agradar, sem coerência. Desses. 

Dos que não se preocupam em cuidar daquilo que são, desde que o sejam naquele momento, com aquele fim, independentemente de terem sido outra coisa, noutro contexto. Dos que não assumem. Dos que não têm o que assumir, que a própria existência é um grande ponto de interrogação pronto a servir as vontades momentâneas de outros, para os outros. Mesmo que se contradigam.  

Dos que não têm coluna vertebral de ideias, convicções, opiniões e pensamentos. Porque defender algo pode trazer inimizades. Dos que são um enorme boneco fugidio no qual não se pode confiar, nem esperar algo de lógico. Desses. 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Malévola e as asas perdidas

foto: disney.wikia.com
Finalmente fui ao cinema ver a Maleficent, semanas depois de estrear, já em 2D (como preferia), com olhos carregados e tshirt da Evil Queen, que há qualquer coisa nos vilões tradicionais que sempre me puxou mais do que nos heróis sem sal. Babei pelo baton da Angelina Jolie do início ao fim e saí de lá com a nítida sensação que, a ser alguma personagem ficcional, seria sempre algo parecido com esta Malévola, que voa, que sente, que se revolta, que parece mais humana que dezenas Auroras, sempre a rir, sempre alegres. E que se veste e maquilha muito melhor!

Vejamos, também, como ela, perco a minha luz quando sou colocada numa situação em que fico sem asas, sem ter como nem onde me movimentar livremente, descontraidamente, sem ter de olhar para o lado em constante sensação de perigo, sem me sentir plenamente segura e confiante no caminho que estou a percorrer. Sem asas também me fecho nos lugares mais tenebrosos da minha alma, os mais escuros, procurando razões e formas de sair dali, sem conseguir voar dali para fora, como tão bem sei fazer. E a angústia apodera-se de mim, e os dias ficam mais cinzentos, e o Sol não brilha com a mesma intensidade. Porque me deixei arrastar, porque fui obrigada, porque não é com ferro que se condenam todas as criaturas aladas. Em silêncio.

Portanto, ponham-me um baton vermelho daqueles, prendam-me num espaço do qual não posso ver além das nuvens e sim, seria uma Malévola facilmente, com olhar atroz e sarcasmo nos lábios. Sobre o filme, não é brilhante (embora eu adore fantasia e tenha adorado ver este no cinema), mas vale quanto mais não seja pela caracterização fantástica da Angelina Jolie.


sábado, 14 de junho de 2014

Devaneios | A Abertura da Copa e os costumeiros azedumes

A abertura da Copa, ou Mundial, no Brasil foi anteontem. Muito se falou sobre o que deveria ter ou não acontecido, muitas manifestações se fizeram sobre variadas lacunas (umas mais graves do que outras) do país. Reivindicações, transportes parados, vozes zangadas a maldizer Dilma e o governo. Mas ela veio, está para ficar até dia 13 de Julho e o país, esse, vestiu-se de amarelo, faz folga em horário de jogos, torce pelo onze canarinho, entusiasmado, de coração no peito, com o costumeiro fervor. E a vida vai, animada. Contestações, existem, mas uma minoria, cujo valor é, para mim (que isto opiniões há muitas e cada um tem a sua) questionado pelos inúmeros mascarados que decidem vandalizar espaços, carros, num acto mais de brutalidade inconsciente do que de luta por algo bom, por um país melhor, mais justo, mais igualitário. E, no meio disto tudo, entre calor futebolístico e contestação violenta, há aquelas vozes que criticam porque sim, porque o fariam independentemente de tudo, porque é preciso criticar. O Público publicou um texto desses (e eu continuo sem entender o critério do jornal do qual francamente costumava gostar), indignado com a qualidade da dita abertura, e eu não consigo deixar de escrever o quanto esse meio, de gente que não sabe sequer o que é que critica, nem contra quem, me diverte. 

Vejamos, as cerimónias de abertura de eventos do género, evento este com um comité organizador internacional, no qual a voz dos países anfitriões fica, muitas vezes, calada, nunca são brilhantes, dignos das acrobacias do Cirque du Soleil. Nem têm de ser, para mim, que o mais importante do Mundial são os jogos, não os espectáculos adjacentes. Contudo, as críticas à prestação do Brasil foram mais que muitas; porque foi pobre, porque tinha gente vestida de plantas, porque não foram buscar o ânimo do Carnaval ou porque os gringos oficiais a cantar não o fazem tão bem quanto uns brasileiros fariam (e tantas mais...). Já estou de sorriso em riste que isto do ser humano rezinguento diz-se que é coisa de português, mas cada vez mais acho que estamos muito bem acompanhados. Então, pensemos um bocadinho, por partes. 

Se o espectáculo tivesse a pompa e circunstância de Sochi, lá viriam as vozes contra o dinheiro gasto pela Dilma (coitada, tem que ter umas costas largas!), em vez de o usar em escolas, saúde e afins. Eu não sou brasileira, mas pelo que já me apercebi, estamos a falar de orçamentos, receitas e bolsos diferentes, um não implica o outro. Contestação sim (afinal, ter a atenção mundial voltada para o país não é coisa frequente), mas foquem o ângulo, que está meio difuso. Desde a batalha naval que eu já aprendi que acertar na água nunca ganha o jogo a ninguém. Portanto, pareceu-me uma abertura à medida do que é. Nem mais, nem menos. 

As plantas e água infantis... ah, a melhor crítica, sem dúvida... Se fosse na Broadway, num espectáculo do Rei Leão, com animais e plantas, ou no dito espectáculo do famoso circo, era uma decoração magnânima, deslumbrante, com caracterização maravilhosa. No Brasil, na abertura da malfadada Copa, diz-se vergonhoso, digno de festinha infantil, de fazer desligar a televisão dos mais sensíveis a terror nocturno e comiseração alheia. Como o ser humano é engraçado! No espectáculo, que, se fosse à noite, teria a seu favor a fraca iluminação para lhe dar o ar místico tão procurado, o Brasil tocou de leve as suas raízes, mostrou que é mais do que mulheres nuas no Carnaval e que tem orgulho de ser terra de índios, europeus, africanos, e toda a mistura que por aqui vemos. Ligo aqui à outra questão. Queriam pôr mais uma vez os carnavalescos à frente do espectáculo ao mesmo tempo que criticam os estereótipos? Não vêem que aí há um paradoxo? O Brasil mostrou que tem outros sons, que é mais do que uma terra colonizada, que abraça os que estavam e os que para cá vieram. Os primeiros que apareceram de barco e os segundos pela multiplicidade de sons, danças, cantares que vimos a seguir. O Brasil é terra só de samba e mulheres com plumas e pouca roupa?! Não! E mostrou-o na cerimónia para quem quisesse ver. Mostrou, a nós, os gringos (que eu descobri há pouco tempo que sou gringa, e nunca me tinha apercebido disso) que para aqui estamos, e que crescemos a olhar para esta terra como de gente promíscua (desculpem-me a franqueza, mas quem não ouviu um comentário destes?). Tem tradição, tem história, tem uma identidade, ou várias, que são daqui, são deles, que não são iguais aos outros, aqueles, que o colonizaram, e que hoje voltam como convidados, apenas, para assistirem ao desporto que, quer se queira, quer não, une vontades, democratiza vozes, nos torna, por momentos, iguais (ou quase). Hoje, o Brasil é o anfitrião, de cabeça erguida, orgulho no que conseguiu até hoje, apesar de tudo, que recebe os que outrora o invadiram, já que, como diz a Cláudia Leite: “Quando eu chamo o Mundo inteiro para jogar é para mostrar que eu posso”. Só eu me apercebo do poder desta frase?

As únicas críticas às quais também me junto (e não, não é para falar de um playback que nem existiu, julgo) tem a ver com os cantores oficiais e com a falta de importância dada ao exoesqueleto. Sim, o Brasil tem vozes e compositores poderosíssimos, capazes de criar uma música oficial melhor, muito melhor, que falasse a nossa língua (e não o espanhol, oh meu deus, porquê o espanhol? Contra os estereótipos de muitos países, o Brasil não é hispânico, minha gente, não é.). Até entendo a música em inglês, afinal, é um espectáculo mundial (por mais que eu seja adversa ao poder dos anglófonos, mas isso seria tema para todo outro post), mas que tal darem mais voz aos nacionais? Já me explicaram. É uma lógica puramente comercial; o Pittbull e a J.Lo vendem mais do que outros, e a Sony e a Fifa só estão preocupadas com isso, e, quanto à tecnologia que permite a um paraplégico chutar uma bola, a ciência não é mediaticamente atractiva. É triste. Mas aqui entra a minha veia contestatária que se revolta contra a importância do capital no Mundo. Entendo, mas não quero que essa seja a lógica vigente. Pronto. 

Já me alonguei mais do que previsto, mas, que fazer, se o azedume alheio me incomoda, especialmente quando vem de um terreno fértil em fundamentos cheios de lugares comuns e argumentação tosca e sem sentido. A crítica é válida e todos temos o direito de nos expressar, mas convém fazê-la de forma minimamente consciente. A abertura da Copa não foi assim tão má quanto a pintam, especialmente porque foi exactamente aquilo que tem de ser. O Brasil começou bem no espectáculo, que vale o que vale, e no jogo (que poderia ter sido melhor mas enfim, ganhou). Tenho dito. Crucifiquem-me!

sábado, 7 de junho de 2014

Sou esquisitinha, sou! # 3

Mais um punhado de coisas das quais não gosto, que hoje estou adoentada e muito rabugenta:

1. De perder o olfacto quando adoeço, e descobri-lo quando decido barrar-me de um produto Terracota, da Guerlain, para me sentir melhor, mais feminina e com o espírito lá em cima. Gasta-se o produto e eu podia estar a cheirar a sabonete de glicerina que era exactamente a mesma coisa. 
2. De viajar com um grupo grande, com interesses e vontades díspares. Deixem-me lá parecer um ermita solitário, mas, em viagem, especialmente quando é a minha primeira vez num local e há um roteiro que quero fazer, custa-me imenso gerir as sonecas e preguiças matinais, as exigências para comer aqui ou ali, as expectativas diferentes e os hábitos incompatíveis que se tentam compatibilizar. Se nos primeiros dias respiro e ainda tento que todos acompanhem, a partir do terceiro vêem-me a proferir o meu tão famoso: "gente, aqui ninguém é siamês!" e a seguir viagem, sem arrastar os que querem outra coisa ou os mais lentos. Amigos, amigos, viagens à parte! 
3. Dos eternos narcisistas, egocêntricos, enigmáticos, chamadores de atenção do Facebook (não poderia faltar aqui uma desta rede social tão rica). Já partilhei na Salinha um texto engraçadíssimo sobre comportamentos insuportáveis nas páginas pessoais e continuo a lembrar-me dele quando encontro um típico "Mais um dia triste...", "Finalmente, consegui!" (mas, perante a perguntas esperadas de pessoas preocupadas, vem sempre um, também tipico, "não posso contar", ou "sempre o mesmo", ou "quando puder conto"), ou uma expressão, também típica, de como se é social, brilhante, se tem muitos amigos ou uma relação perfeita, ou o que quer que seja a pedir aceitação e reconhecimento gratuito dos outros. Ou a eterna valorização dos momentos rotineiros do dia, incluindo os mais íntimos... ah, como são geniais! A muitas pessoas tenho vontade de dizer: "Olhem, o Facebook não é espaço de terapia. O melhor, e mais eficaz, é procurarem um profissional. Acreditem, ajuda."
4.  De chuveiros elétricos. Haja mecanismos mais difíceis de gerir, logo pela manhã, quando é necessário um banho para começar o dia como deve ser. Quem gosta de água quente (quente mesmo), e não gosta da ideia de misturar electricidade com água, então nunca comprem uma coisa destas. É uma chatice grande (pior só banho de água fria de caneco!)
5. De café, azeite, azeitonas e leitão e continuo a ser portuguesa, apesar das várias expressões indignadas ou em piada perante tal facto. Continuo a gostar, e muito, de bacalhau, mas como o à lagareiro ou qualquer peixe cozido sem o líquido de ouro e, olhem, sabe-me muitíssimo bem! 
6. De quando o nariz escorre sem aviso nem pedido de autorização e dos espirros molhados antes de chegar ao guardanapo. Mas quem é que manda aqui?!

sábado, 24 de maio de 2014

Sou esquisitinha, sou! #2

Além de algumas coisas das quais não gosto, outras que não consigo explicar, há sempre aquelas que eu não entendo, por mais que passe algum tempo a reflectir sobre elas. Segue, por isso, a primeira leva, que pode ser que alguém me ajude a descortinar a luz, entre as minhas inquietações (sejam elas mais ao menos complexas):

1- Pessoas que comentam nas  supostas páginas "oficiais" de gente famosa, como se as conhecessem de longa data, e fossem muito íntimas. Será que sabem que essas páginas, muitas vezes, são geridas por acessores, outras vezes nem são verdadeiras (mas sim produto de algum fã por mim incompreendido), e que por mais que haja uma ligação no Facebook, isto não quer dizer que a celebridade vá responder ou convidar para tomar um chá, um dia destes, na sua casa? 

2 - Da mesma medida, e ainda mais estranhas, são, para mim, as pessoas que escrevem em páginas de Facebook de pessoas que faleceram, com mensagens direccionadas à/ao falecida/o em questão (seja ela famosa ou não).  Preciso de dizer o quão mórbido isso me parece?

3 - A necessidade de haver páginas a "informar" sobre os acidentes nas estradas de Portugal, com fotos. Sim, sim, o condutor gosta de saber se o seu trajecto está, ou não descongestionado, mas acho muito estranho ninguém ter pensado nas vitimas, nas famílias das vítimas, ou em qualquer pessoa que reconheçam os carros em questão (ou acha que reconhece) e que possa, com isso, sofrer uma síncope, antes de ter qualquer informação concreta, em condições dignas, seja ela boa ou pior. Informar que a estrada está congestionada, sim, mostrar fotos, não! Sensacionalismo barato e a mais, gente. Parece-me. (Ou será que não é e eu é que estou enganada neste mundo?) 

4 - Pessoas que não conseguem opinar sobre a beleza de algo, quando este é totalmente oposto àquilo que a própria pessoa usaria, gostaria, vestiria, e por aí adiante. Há várias coisas que eu não adoptaria, mas que reconheço que, noutras pessoas, fica bem, faz sentido, é bonito. "Gosto, em ti"; "não gosto, em mim" não são expressões excludentes, não precisamos de afirmar uma por oposição à outra quando nos perguntam directamente a nossa opinião sobre a beleza de algo, nem desgostar só porque a nós ficaria mal. Reconheço que há peças da Vista Alegre que são bonitas, mesmo que tal não signifique que compraria alguma para minha casa. Reconheço que o cabelo pintado de louro, quando bem feito, fique fantástico a muita gente, mesmo que não seja, de todo, a minha preferência, enquanto apaixonadamente brunette (que mais facilmente pintaria o cabelo de ruivo). Sou assim tão estranha? 

5 -  Pessoas que necessitam de se valorizar por constante oposição aos outros, que julgam inferiores, menos correctos, menos inteligentes, "menos" no cômputo geral, que pessoas assim vêem-se como superiores em tudo. Magnânimas na sua sapiência e únicas enquanto seres humanos racionais, especiais, melhores. Sempre achei que várias formas de olhar o mesmo objecto podem ser viáveis, podem coexistir, desde que bem fundamentadas, correctas (que a correcção muitas vezes não está apenas numa única perspectiva), sem precisar de se denegrir o outro, para se mostrar que se é melhor. Posso valorizar o que sou, porque acredito no que sou, defendo quem sou, sem fazer disso uma cruzada que mostre o outro como mau, ou o meu desprezo pelo que o outro é. Mostrem-me porque julgam a vossa a posição mais acertada, com bons argumentos, sem me espezinhar, e quem sabe eu própria não mude de opinião? A diferença pacífica, sem agressividade física ou verbal, é possível, julgo. Ou será que não e que eu sou uma idealista inveterada, que nunca vai compreender a forma como o mundo gira?

E para já é tudo, para a próxima há mais cinco, que o quotidiano é rico em momentos que não entendo, e a curiosidade é coisa para nunca me abandonar.  

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Da derrota do Benfica e da descrença no ser humano

Cada vez que o Benfica perde um jogo relativamente importante, especialmente depois de uma época melhor (sim, porque também as tem, não são só os outros), o chorrilho de comentários contra o clube encarnado desenrola-se nas redes sociais, num rol de asco e jocosidade, de troca de galhardetes e apupos, de gente que de correcto tem muito pouco. Ontem não foi excepção. Isso faz-me, sempre, querer afastar do futebol, da minha clubice interior (que sou benfiquista há demasiados anos para não vibrar com as vitórias, nem ser indiferente aos jogos), e esquecer que gosto de ir aos estádios, gosto da adrenalina que me deixa o constante tremor de incredulidade e esperança, que o Benfas me proporciona, normalmente, até ao último minuto (haja coração!).

Mas ontem, no meio da euforia pela vitória alheia (de gente que é do Sevilha desde que nasceu, com certeza), um comentário de um amigo (ou vários, em cascata, para ser sincera) fez-me pensar mais além, para lá do futebol, para lá de equipas e adorações, para lá de cores e emblemas. Na nossa postura e atitude com a vida, com a sociedade, com o mundo. Não me incomoda, nem um pouco, os laços que as pessoas criam com determinados grupos, sejam eles desportivos, políticos, sociais, e por aí adiante. Reconheço, e entendo perfeitamente, que a identificação do indivíduo se faz (também), pela semelhança, a aproximação, a integração, em colectividades que sinta como suas, cujos valores abraça e cujos ritos segue. Não, não me incomoda nem um pouco que haja a tendência para o agrupamento, para a comunidade, em volta de um clube, um partido, uma religião, uma língua, per se. Compreendo, da mesma forma, que a oposição é, em si mesma, variável presente e constante na adopção de um grupo, tal como um jogo tem duas equipas (ou mais) distintas, com cores diferentes, bandeiras e slogans distintos, seguidos por adeptos também eles identificados, se não na roupa, activamente, pelo menos na respiração ofegante num lance perigoso, no olho que fecha de desgosto quando o “seu” guarda-redes deixa entrar a bola. Sim, compreendo a oposição na sua forma simples, que distingue, que nos torna diferentes. Afinal, não temos de ser todos iguais, onde quer que seja.

Agora, o que eu não entendo, confesso, é a paixão pela derrota, pelo sofrimento, pelo azar do outro, mesmo quando o “nós” pouco ou nada tem a ganhar com o assunto, quando a oposição não lhe bate à porta, quando a afronta directa não traz nada de bom, nem de novo, nem para um, nem para o outro. Porque se é para confrontar algo ou alguém, ao menos que seja para que daí advenha algo de positivo. Quando, ao ler as redes sociais depois de qualquer momento importante, o que observo é um prazer sádico, cruel, feroz, de ver o outro no chão, o outro sem luz, o outro a perder, desacredito no ser humano, racional. Perde-se a razão, perde-se a humanidade, perde-se a dignidade, e eis que o conflito passa a ser uma série de ataques, violentos, verbais, físicos, dos quais a determinada altura ninguém sabe o sentido, ninguém sabe como começaram, para que servem, a não ser pela vontade de infligir, no outro, a maior humilhação, irritação e desprezo. Resultados construtivos? Nenhuns.

Somos assim no futebol, onde frequentemente vejo portugueses, de outros clubes, a torcerem ardentemente pela equipa menos falada dos confins da Rússia, se tal significar ver o Benfica a perder e poderem desencadear o leque de humilhações, a apresentação de feitos passados da sua equipa (mesmo que, nesse ano, não tenham feito nada; mesmo que já tenham sido eliminados dessa competição e quem ganhe ou perca não afecte em nada), comparações sem fundo de sentido. Porque, se, antes do jogo, a estratégia começa por tentar baixar o espírito do adversário medindo forças, até consigo entender. Os maiores estrategas militares já assim o previam e aconselhavam. Mas quando a competição não nos afecta em nada, quando é só pelo tal (repito) prazer sádico, então há algo de mal com a humanidade. A que vê futebol e a que não vê, porque, se observarmos bem, este comportamento estende-se para lá do desporto, e em esferas da vida, pessoal e social, que deveriam ser um bocadinho mais compreensíveis, solidárias e abertas ao diálogo com o outro. E aí temos partidos que só sabem trocar responsabilidades passadas, presos a culpas que não resolverão nada, prontos a ferir o outro, em vez de trabalhar em conjunto. E a vida vai, e a crise aumenta, e a sociedade empobrece, e quem lá está aquece o lugar e sai incólume. Vemos grupos sociais que canalizam nas outras, ferozmente, a razão da sua desdita, rompendo laços, desprezando uns e outros, fechando a possibilidade de crescimento mútuo. Vemos adeptos cegos, que há muito esqueceram o que é fair-play, especialmente fora do campo, onde não há leis para palavras que ofendem, nem cartões para faltas graves.

Depois admiram-se, como aconteceu há bem pouco, que a rivalidade que os consome não se sinta nos seus ídolos ou líderes carismáticos. Não conseguem ver, são cegos. A fotografia de dois líderes de bancadas opostas, a confraternizar alegremente num almoço, incomoda. Aqui há umas semanas um vídeo de um abraço entre o Cristiano Ronaldo e o Messi surpreendeu; o mundo levantou a sobrancelha, e os dois devem ter bebido uma cerveja num churrasco, a rir da celeuma alheia. Eu fá-lo-ia, no lugar deles. Que rivalidade entre titãs, tal qual Leonidas e Xerxes, não faz muito o meu género. E palpita-me que nem a eles.

Como diz uma amiga minha “menos, gente, muito menos”. Não há qualquer necessidade, parece-me, de querer ferir o outro. O mundo gira com menos ódio, acreditem. A oposição existe, reconheço, e o confronto é, muitas vezes, força motriz do avanço, mas há vários patamares de acção e a linha entre o que está correcto e o que não está é ténue. Mas está lá. E serve para alguma coisa. Quanto mais não seja, para me fazer desacreditar na capacidade do ser humano para a ver.        

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Sou esquisitinha, sou! # 1

Coisas das quais não gosto* (primeira leva, levezinha, para começar) : 

1. Ventoinhas ou ar condicionado, especialmente quando estão tão fortes que tenho de vestir um casaco só nas divisões onde os apanho (ou nos autocarros aqui no Rio, onde alguns parecem chegados do Pólo Norte);
2. Que achem que tenho botões on-off para não ligar a coisas que, de facto, incomodam até ao ser mais pacato e blasé do Mundo. Se a minha tolerância e paciência fossem como aparelhos auditivos, acreditem que seria a primeira pessoa a desligar barulhos indesejados; 
3. De misturar vermelho e rosa. Para mim não combinam, não ficam bem e arrepiam-me toda. Pronto, está dito.
4. Da forma como algumas pessoas se sobrestimam, enquanto subestimam a inteligência alheia. Não tenho paciência para egos inchados e vaidades sem fundo, muito menos quando tudo faz parte de teatros e jogos de manipulação; 
5. De feijão-verde e agrião. Torço o nariz a filhotes de animais e a couve flor. A baba do quiabo incomoda-me imenso. O resto como tudo. 
6. De quando os guionistas das séries que vejo decidem mudar a coerência narrativa das personagens e do estilo. Adoeçam-me uma personagem de uma série cómica e vejam-me a atirar com um chinelo à televisão. Se quisesse ver desgraças e drama, procurava outros géneros. (Responsáveis do HIMYM, isto é especialmente para vocês (mas não apenas)!) 
7. De cabelos todos iguais, com o mesmo corte, o mesmo estilo, sejam todos lisos, ou todos com babyliss. De fotocópias na rua e margem curta de manobra para cada personalidade. Ser-se bonito, elegante e moderno não pressupõe apenas uma forma de pentear o cabelo (que curto também pode revelar uma feminilidade sensual);
8. De água fria. Independentemente do calor que esteja na rua. Tirem-me o banho quentinho da manhã e sentem-se a apreciar o espectáculo, que em poucos minutos viro um bicho rezingão. 
9. De adultos demasiado infantis e crianças demasiado adultas. Há tempo para tudo. Para brincar, para ser sério, para crescer e, principalmente, para se conhecer, compreender, melhorar o que queremos, sem copiar ninguém. Ser autêntico, honesto com o que se é, é saudável e faz bem à saúde (nossa e dos outros). 
10. De fazer compras no supermercado. Há pessoas a quem o passeio com o carrinho pelos corredores de produtos, avaliando promoções e bons negócios, acalma, outras que detestam perder tempo a analisar o que falta em casa. Estou no segundo grupo. Sem lista e metas concretas, então, não me verão com certeza num continente, modelo, pingo doce, carrefour, franprix, extra, guanabara, real ou qualquer outro, em qualquer parte do mundo.  


* de dez em dez, que isto de andar atenta faz-me não gostar de demasiadas coisas. 

(o blog Coisas & Cenas partilhou a listagem (em vários posts) de coisas que irritam. Apesar de diferente, fica a referência da inspiração, dado que foram posts que me fizeram pensar, especialmente, no quão simpática é a partilha destes pormenores que fazem de nós, nós. Mesmo os feios, para equilibrar a beleza da coisa.) 

terça-feira, 18 de março de 2014

Desmistificando Diversidades # 1

1. As fotos de bico em riste não são, normalmente, as que mais favorecem. Pelo contrário, a mim, um bico feio causa-me gargalhadas, além de uma pitadinha de vergonha alheia, se muito acentuado. Não é sexy e, se até à Keira Knightley chamam a atenção para reduzir a intensidade do biquinho que fazia com os lábios, porque acharão algumas pessoas que ficam bem assim? 

2. Também se pode trabalhar em frente ao computador, e não, não é em campos de cultivo virtuais, ou plataformas de campanhas em rede. E sim, também se pode ficar cansado, e muito, por um trabalho essencialmente mental, por mais que estejamos sentados. 

3. As portuguesas não têm bigode, as francesas tomam banho e as brasileiras não são "mulheres da vida", nem são todas bombas sexuais. Get used to it! São estereótipos que não fazem bem a ninguém e o resto é conversa, que não serve nem para adormecer (apenas para me entediar horrores).  

4. Falar, escrever e gostar de produtos de beleza e maquilhagem não faz da pessoa (seja homem ou mulher) fútil e superficial. Se conhecessem algumas cabeças que estão por detrás de alguns blogs perceberiam isso facilmente. A igualdade e a liberdade estão na escolha de usar, não usar, gostar, não gostar, ser, ou não ser, e, francamente, ninguém tem que julgar o que quer que seja. Especialmente quando, e voltamos ao anterior, é uma opinião baseada principalmente em preconceitos e estereótipos infundados e que corroem mais do que constroem. 

5. Podemos ter interesses diferentes, desde a cena mais comercial e cliché do mundo, ao som que só meia dúzia de pessoas apreciam. Ver filmes de bilheteira e o mais escondido cinema independente, non-sense ou não. Ler livros brilhantes e outros apenas pelo entretenimento da coisa. Ser eclético é bom e recomenda-se.

6. Há quem goste do filme Sweeney Todd, mesmo com o Johnny Depp a cantar (por sinal, há quem goste do JD desde a Rua Jump 21 e não seja groupie ou adolescente).  

segunda-feira, 10 de março de 2014

Das pessoas | A compaixão vazia e a solidariedade fotogénica

Toda a comoção e a indignação que tem movido o Facebook em torno da sessão fotográfica com a Rita Pereira levou-me a, passados meses de clausura e introspeção sobre evoluções e passos que somos obrigados a dar na vida, escrever sobre o que trago em mim de um espaço que também se tornou meu, onde deixei parte de quem era e trouxe muito do que sou hoje, Cabo Verde. Explico-vos porquê.

Dizem que África nos molda, nos tolda, e nos deixa órfãos quando nos vamos embora. Eu nunca acreditei, nem subscrevo, assumpções tão generalistas que partem imediatamente do princípio que um continente, tão vasto em culturas, mentalidades, povos, formas de viver, quantos os quilómetros que separam países e meridianos que os ultrapassam, é todo igual. Não é. Dizê-lo, de boca cheia, parece-me sempre tão acertado e sério quanto dizerem que nós, portugueses, e os polacos são iguais, e que a Europa de uns é igual à dos outros. Disparatado.

E, contudo, Cabo Verde, do qual posso falar, deixou-me assim, moldada, toldada, órfã de uma terra que não era minha, que me maltratou no primeiro ano e que passei a adorar. Tanto quanto aqueles amores estranhos, loucos, que se entranham e dos quais só nos apercebemos quando se foram embora. Ou quando partimos, que foi o que aconteceu, no meu caso. A vida é de evolução, e a minha estava num afastamento que, fossem outras as condições, nunca teria acontecido. Mas não são. Se há semana que passa em que não penso nas gentes, no Sol, na calma e simplicidade de uma vida tão própria? Não há. Se sinto aquele aperto para voltar, já amanhã, e abraçar o que de mim deixei lá, aqueles cujas vidas tocaram na minha e me fizeram crescer, viver, saborear risos e partilhar frustrações, gritar com o mundo mais petulante e chorar ao lado dos que se esforçam por ter algo, com um ânimo de alguém que só de si se vale? Sinto. Muito.

Há qualquer coisa naquela terra, árida na maior parte do tempo, naquelas pessoas, cuja morabeza não é a dos hotéis, nem a que romanticamente idealizamos, que entra em nós e nos faz sentir aliens perdidos no meio de comunidades, outras, materialistas, individualistas, com egos que se medem pelas contas bancárias. O regresso foi um choque. Confesso. Deixar amigos para trás, que ganharam lugar cativo no meu coração, com preocupações dignas de seres humanos, completos, que lutam, que sabem distinguir o valor das coisas, e das pessoas, e sentar-me à mesa de quem mede forças pelo preço do que compra, do que tem, é algo que tem tanto de inexplicável, quanto de penoso. Aqui estou eu, mais de um ano depois, a assumi-lo. O problema não eram os outros, esses estavam iguais, era eu, diferente, não apenas num rosto mais cansado, mais maduro, com a pele de quem viveu anos debaixo de um Sol  mais claro, mais baixo, mais quente, mas também nuns olhos que viram o que é viver sem nada, ali ao lado, e um coração que não queria suportar o regresso, que anseia por voltar, que se sente perdido no meio de outros, pequeninos, que se julgam muito maiores do que são. E nem percebem como estão errados. Não estou melhor, nem pior, estou diferente.

Por isso, e chegando às malfadadas fotos que circulam por aí, custa-me o extremo mau gosto da campanha (da qual não entendo a razão e, quando assim é, significa que a estratégia de comunicação não foi tão bem desenhada quando podia), mas ainda mais os comentários de comiseração bacoca, compaixão de uma superioridade ignorante, que tratam as pessoas como se de "coitadinhos" se tratassem. E daqui parte um dos primeiros erros e sentimentos que não se deveriam nutrir pelos outros. A comiseração misturada com uma pena que, no desconhecimento, nos faz sentir defensores de causas, na net, por escrito, mascarados por identidades virtuais, fachadas essas com as quais podemos ser este mundo, e o outro (que a ser, sê-se em grande). Revoltamo-nos, julgamos a modelo que lá está no meio como se o diabo fosse, porque “coitadinhos” dos que estavam à volta, perante tanta opulência, tanta riqueza, no meio de quem nada tem.

Não direi, com isto, que não vi muita "miséria" em Cabo Verde. Vi. Crianças com roupa rota, a jogar com uma bola feita de trapos, descalças (se algum ser que se julgasse superior me visse, nos anos oitenta, na aldeia da minha avó, a brincar com a minha prima, descalças, sujas, na terra, também nos fotografaria). Mais meninos de rua, sozinhos, do que alguma vez deveria ser permitido (porque até um já é demasiado). Casas por construir, por terminar. Comida que escasseia em muitos pratos e escolas demasiado longe para muitos alunos, que têm de andar quilómetros a pé, faça sol ou chuva (e em Cabo Verde isto significa terra alagada e muita lama, escorregadia naqueles montes do interior de Santiago). O cansaço na vendedora de rua, que lá está o dia todo (todo! Não as quarenta horas semanais, nem algumas horas extra, tão penosas e queixosas para alguns, que acham que são desgraçadinhos a trabalhar, mesmo por conta própria, para terem “coisas” topo de gama) para conseguir dar aos filhos, que a ajudam quando podem, um futuro melhor. Jovens que batalham com a força de heróis para conseguirem ir longe, simplesmente para serem quem querem ser, quem sonharam ser, já que não podem contar com mais alguém a não ser com eles próprios. E noutros países haverá, com certeza, ainda mais. Mas “coitadinhos”? “Coitadinhos” não são. Até é ofensivo.

A distribuição de riquezas mundial é, de facto, assustadora e revoltante. Não temos uma real noção de quanto até abrirmos as mentes e nos confrontarmos, in loco, com ela, olharmo-la nos olhos e identificarmos a sua verdadeira alma, diabólica. Um dia, um aluno meu disse-me que tinha sido Deus a fazer com que algumas pessoas nascessem num país com tantas faltas, onde a chuva não cai, a comida não abunda, no mar nem um pocinho de petróleo se encontra. Pequenino, já que o país também não é grande. Sorri, tentei explicar-lhe que não. Mas como perceber, eu, que vivi sempre com electricidade e o conforto de um banho quente matinal, a visão de quem se habituou a conhecer outro mundo, o nosso, nas palavras de emigrantes, nas fotos ou na televisão, quando havia? Fiquei com vontade de pegar nas fortunas da ínfima percentagem dos grupos e pessoas que seguram as cordas do mundo, e espalhá-las por ali. Mas não tenho como. Infelizmente. Só posso fazer o que está ao meu alcance. 

Não trouxe, contudo, comigo, a ideia de um povo e de uma comunidade merecedores de uma pena vazia. Isenta de acções. Muitas vezes, resultado apenas de uma noção de consideração mínima da regra do politicamente correcto, totalmente desprovida de fundo de valor. Revolta-me a hipocrisia, muitas vezes incorporada ao ponto de nos acharmos repletos de uma compaixão que nos faz dignos de um pedaço do céu, ao ponto de me gerar náuseas. Sinto que é o Cabo Verde que se entranhou em mim que me faz ficar fisicamente incomodada com o coração oco alheio, aquele que faz mal ao próximo e defende, porque está longe, o outro, só porque tem um tom de pele que, mediaticamente, fica bem associado com a solidariedade e caridade.

O mundo evoluirá quando nos olharmos como iguais, e não uns de um pedestal sobre os outros, os “coitados”. Há gente que precisa, muito, da nossa partilha, onde quer que esteja, mesmo que seja aqui ao lado de casa. Cada um de nós sabe como essa parceria pela humanidade pode ser feita; cada um dá o que tem e sabe. E há gente muito feliz e muito lutadora mesmo sem o último telemóvel ou carro topo de gama (ou mesmo sem nenhum, acreditem). Ou sem vestir as marcas x ou y da moda, porque fica mal não as usar, já que todos os outros têm. Satisfeitos com o que têm, com a vida que levam, simples e humilde, mas nas quais há espaço para a família, que apoiam e para a qual estão presentes, naturalmente, assim, de braços honestamente abertos, porque ela vem sempre em primeiro lugar. E não estou a falar num núcleo pequeno, mas de uma colaboração entre primos, tios, sobrinhos, que, em alguns casos, chega às dezenas. Há de tudo, em todo o lado, de todas as cores, de todos os feitios.

Ninguém nos fez donos da sapiência superior, nem dignos de julgarmos os outros por terem vidas, hábitos e mentalidades diferentes dos nossos. Muito menos de manter estereótipos de uma "miséria" que é foto e videogénica, ao mesmo tempo que nada fazemos para estender a mão ao outro. Numa das letras de uma das minhas músicas cabo-verdianas favoritas, a Mnine de Rua, dos Cordas do Sol, encontramos, a determinada altura, esta frase: “Es e mnine d'rua ma es meste nos tude/ Ai munde, Ai Munde/ Un kalker d'nos pudia ser mnine d'rua” (É menino de rua, mas precisa de todos nós /Ai mundo, ai mundo / Qualquer um de nós podia ser menino de rua). E, para mim, é daqui que devia partir a ajuda, a parceria global, o voluntariado e a mão estendida, ao lado, não por cima, não com a compaixão que “fica tão bem”. Porque, lembrem-se “qualquer um de nós podia ser menino de rua”. E se fôssemos, queríamos ser tratados como “coitadinhos”, especialmente por quem pouco faz por nos conhecer? 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Das pessoas | As calhandeiras de língua bifurcada

Há pessoas que gostam de falar muito. Sobre tudo. Especialmente sobre a vida dos outros. Pessoas para quem o diz que disse do foi não foi ganha a importância de uma declaração de um tratado de paz, ou, melhor de início de hostilidades, como tanto gostam. Pessoas a quem importa o que aconteceu, o que não aconteceu e, principalmente, a história mirabolante daquilo que poderia ter acontecido. A veracidade é, para elas, tão relevante quanto um guarda-chuva num dia de sol.

Há pessoas que são ouvidos, outras boca, algumas não querem nem saber e há as universais, que são tudo e mais alguma coisa. Não contentes em focinhar meandros que não lhes pertencem, absorvem o que podem (ou o que querem, da maneira que mais lhes aprouver), criando o veneno adequado ao interlocutor escolhido, que escorre das suas línguas bifurcadas. Acham-se senhoras, as pessoas, estas, daquilo que afirmam com convicção, pensando, com isso, estar acima dos mundos que vão partilhando por aí. Mas quanto se enganam.

Há pessoas que ouvem, e partilham, e adulteram o que já interpretaram de forma adulterada. Juízes das palavras e acções que outros, os pobres crentes, tiveram o azar de partilhar (ou não, porque se não se encontra a informação, há sempre forma de a criar). Para quem o alento de uma maledicência enche uma alma vazia, desprovida de sentido. Espírito inútil que se alimenta de enredos alheios para esconder a solidão e frustração de uma vida pálida e acinzentada. Sem cor, nem brilho, nem felicidade.  

A Ellen Page disse, na sua declaração recente, brilhante, que "o mundo seria bem melhor se nos esforçássemos para ser menos horríveis com os outros". Podíamos, devíamos, começar por aí. Deixar de lado a tendência sedutora dos dedos apontados, dos julgamentos de vidas outras, do complexo de divindade descida à Terra, melhor do que os outros, das palavras ocas jogadas ao vento, ou à mente de quem quer ser envenenado. A comunicação tem fins muito mais nobres que esse. Um deles, simples, é, na dúvida, questionar sobre a veracidade das palavras ouvidas por aí e, já agora, calar antes de afirmarmos o “certo” sem fundamento. A sociedade agradece. 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Devaneios | Carta a uma parceria vitalícia*

Quando os olhos se perdiam em histórias fantásticas que imaginávamos nas janelas do prédio em frente, abandonado há muito, mas cujas persianas mais ou menos fechadas nos faziam criadoras do real ficcionado, julgávamo-nos intocáveis, inabaláveis, como se a paz estivesse ali e ninguém pudesse rasgar a fotografia do momento perfeito. Tudo parecia resultar numa facilidade e humor muito nosso, brincando e voando com guarda-chuvas mágicos, alegres e em harmonia como dentes de leão estivais, pelos vendavais que por nós iam passando. 

Ninguém que nos visse duvidaria da relação perfeita entre a calma e a tempestade, entre a paz e a intempérie, tão latina, que tornaria a coexistência um misto de gargalhadas e silêncios, todos eles sentidos, todos eles aceites e tão bem compreendidos. Fazem-me falta os degraus cantantes, e as loucuras gastronómicas, e até as sopas de cebola, intercaladas com batidos de banana, num sacrifício, de gigante para as gulodices que somos, só com piada porque partilhado contigo. 

Hoje, os mais pequenos pormenores do quotidiano como rodar a chave na porta ou olhar o reflexo que não reconheço ao espelho se tornam demasiado solitários, sem alguém para ouvir os meus devaneios de musa perdida. Sabíamos de antemão que o futuro chegaria, e que a dupla, ou até mesmo o trio ou quadra que se juntava à volta de um pedaço de ambrósia quente, seria impossibilitado, por caminhos agrestes, de repetir a sazonalidade dos encontros. Nunca o negámos. 

Mas, e os murmúrios das divagações nocturnas no sofá, quem as ouvirá agora? Quem melhor para as ouvir? Quem desligará a massa que ficou por cozer? O Mundo é nosso, e sempre será, e o no meu sempre estará o teu, como parceiros fiéis em batalhas de Tolkien, cujos exércitos virão em defesa sempre que necessário. Somos elfos, humanos e anões, todos juntos, todos contra as nuvens que às vezes se tornam demasiado carregadas de tudo o que é mau para desaparecerem sozinhas. 

Ter-me-ás, lealmente, para sempre.

*devaneio escrito outrora, mas novamente partilhado. Porque uma pessoa é mais do que uma coisa só e há momentos, ficcionados ou não, que merecem o seu espaço. :) 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Séries | A mulher polícia de salto alto e coração na boca

(este post pode conter spoilers a título de exemplo de Homeland e Bones)

Não gosto do sexismo nas séries. Pronto. Tenho dito e assumido. É algo que me revolta até ao mais profundo do meu âmago, me dá a volta ao estômago e me põe verde de raiva. Quando, então, acontece em séries que comecei a seguir e até a gostar, que me dão a impressão, à primeira vista, de serem diferentes, ainda pior.

Vão dizer que é comum, normal, e que as séries (e toda a produção cinematográfica, convenhamos) são fruto de um contexto social e reflectem, como tal, os valores e hábitos da sociedade na qual se insere. Mesmo muitas, que pretendem ser, de alguma forma, diferentes, acabam por, em temporadas seguintes, dar uma guinada conservadora, dentro do sistema, do comum intocável. Vimos a Bones nos primeiros episódios como uma mulher determinada, racional, criticada até por demasiado crítica e insensível. Vimo-la rodeada por um grupo de cientistas entre os quais Hodgins, que, de quando em vez, lá se mostrava anti-sistema e fã dos que muitos chamam de Teoria da Conspiração. Independentes. Além do clima de romance entre o Booth e a Brennan, quem iria, então, pensar que, mais tarde, ela se tornaria numa mulher que quer casar, constituir a família “comum”, numa série com nuances de um nacionalismo bacoco do “God save America”? Talvez tenham pensado nisso, mas eu não. Quero sempre acreditar que me podem surpreender, e muito, pela positiva.

Em vários exemplos de séries de polícias (confesso que é um género que me agrada bastante, para vegetar em frente à TV ou ao computador), vemos muitas vezes a mulher sensualizada, sexualizada, completamente incoerente com o papel que desempenha. Não me esqueço de um determinado episódio do CSI Miami em que uma das personagens femininas, da equipa de investigação criminal, se desloca a uma cena de incêndio com um fato todo cintado branco. Branco, sublinho. Numa zona cheia de cinzas?! Francamente.

Quantas vezes não vemos, também, polícias ou investigadoras de saltos altos, extremamente maquilhadas, sempre com roupas bem reveladoras do corpo e com o cabelo sempre muito bem arranjado? Estou a lembrar-me da Caleigh e da Boa Vista do CSI Miami, que vivem a combater criminosos no topo dos seus saltos agulha; da JJ, da Prentiss, que fazem directas mas que nunca estão com olheiras; da Penelope Garcia que, à sua maneira, cumpre 48 horas de trabalho directo sem uma sombra esborrada ou verniz descascado, sempre ultra produzida; da Chandler e da Vargas, embora com roupa mais confortável; da Rizzoli e de tantas outras, sempre com tops justos e decotados, por oposição aos homens, de fato e gravata, com o ar mais sério do mundo; com o cabelo fora do sítio e barba por fazer quando tem de ser, quando é isso que retratam, e quase sempre nas posições de chefia.

Quando Homeland começou, achei que tinha chegado (mais uma vez, o meu lado crente), uma série que, contra todas as expectativas, tinha uma mulher num papel coerente, forte, determinada e determinante como funcionária da CIA. Uma espia sem ares de menininha, sem seduzir para recolher informações e, acima de tudo, de pulso firme perante os homens (os chefes, para não destoar, nem incomodar, e o suspeito) que a rodeiam. A determinada altura, mais uma vez, porque, provavelmente, as massas gostam de ver romances e mulheres sensíveis no ecrã (mas quem sou eu para especular sobre o que os outros gostam de ver, acriticamente), a mulher firme torna-se uma apaixonada inveterada, invertebrada, que se deixa levar muitas vezes pela emoção, impulsiva e de sangue quente. Que pensa numa vida a dois, que a tire da solidão e sofrimento. Com razão em muitas intuições ao nível profissional?! Com certeza. Mas “mulher” do senso comum, tradicional, na forma como é construída a personagem na segunda temporada?! Sem dúvida. 

Alguns dirão que assim é por causa da bipolaridade diagnosticada da Carrie, mas respondo-vos lembrando que a doença não explica tudo e, se queriam manter uma personagem feminina forte, poderiam ter acrescentado outra ao elenco principal. Que bem ficaria uma Quinn, no lugar do analista da equipa, ponderada, firme, assertiva, em vez do actual, a quem a Carrie reporta (mais um homem), pedido especialmente pelo Estes com um I want one of my men on the team. Força de expressão?! “Men”, tão sexista quanto o resto (diga-se o que disser, olhem lá para a sua origem).      
A mulher, agora sem aspas, deve ser valorizada nas séries e nos filmes pelo que é, como é. Pela força que a personagem tem, e não pela elasticidade da roupa que veste. Como é que nós, comuns mortais, conseguimos estar ao nível de alguém que corre, salta muros, escapa de tiros, trabalha a noite inteira perfeitas, com a base sempre no sítio e o cabelo solto, ao vento, sempre alinhado, liso sedoso ou encaracolado à babyliss (escolham)? Se não tiver o cabelo apanhado, não consigo correr ao vento sem andar constantemente a tirá-lo da boca; fico vermelha que nem um pimentinho com todo esse exercício e, convenhamos, sombra, blush, e tudo o que tiver escorrerá pela cara abaixo com o suor (ah, pois é, mas elas não suam); Se andasse a fugir pela minha vida o meu cabelo (apanhado, claro está, porque se é pela vida há que ver bem por onde se foge), no caminho, rebelar-se-ia comigo. Serei eu assim tão diferente? Não. Quem escreve o guião sabe perfeitamente qual a diferença.  E sabe bem porque o faz. Nós também. Infelizmente.

Na realidade, apesar do longo caminho já percorrido, há, de facto, muita desigualdade, muito sexismo mais ou menos camuflado, mais ou menos pensado. Falar aqui noutras esferas que não a que me fez escrever este texto, na ficção, seria tema para um blog inteiro. Não é esse o meu propósito. Mas, acreditando que a nossa relação com os media não é a passiva que outrora se acreditava ser, que temos voz e que podemos mostrar que percebemos a forma como a mulher aparece, decidi que era tempo de pôr cá para fora estas pequenas reflexões. Não sou a favor de um feminismo em que mulher deve afastar de si como se de Satanás se tratasse tudo o que é associado ao mundo feminino. Quem seria eu para ter um blog de beleza, se assim fosse. Mas acredito na escolha, na liberdade e na coerência. Em tudo. 

Perdoem-me o desabafo aquelas que ainda não se tinham apercebido e nas quais introduzi este bichinho que me revolta. Espero que um dia se apercebam, aqueles que escrevem os textos que guiam a ficção que vemos, que não estamos de olhos e mentes fechados, e que comecem a tratar as personagens femininas e as masculinas com a igualdade que merecem. E, já agora, que o espírito passe cá para fora, para a sociedade, que bem precisa.   

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Devaneios | Antevisão do que virá por aí

Ora bem, daqui a pouco mais de um mês chega o Dia de São Valentim e, antevendo já a onda "romântica" que varrerá a blogosfera e mundos afins, eis o que desejo para o dia, e para todos os outros dias do calendário:

Feliz dia dos de hoje, dos de sempre, dos ex, dos futuros, dos potenciais e de todos os que optam por estar sozinhos. Feliz dia dos que se amam a si, ao próximo ou ao longíquo. Feliz dia dos platónicos, dos racionais, dos comodistas, dos especiais e dos banais. Feliz dia dos consumistas e dos hyppies. Dos que negam, dos que choram, dos que se revoltam e dos românticos iludidos. Feliz dia porque sim, porque não, porque talvez. Dos que querem, dos que não querem e dos que não sabem sequer. Dos burros falantes e dos suricates que mordem. 

Ouçam o Respect, o I'm Every Woman ou Zé Cid (que também alegra). Vistam lingerie sexy, olhem-se no espelho e sintam-se bem. Dancem. Comam souffle de chocolate, quindins e cheesecakes. Façam jantares exóticos, com alguém ou apenas com o Malato (no regresso do qual às noites da RTP voto com convicção). Comam morangos com chocolate fundido e champanhe. Excedam-se! O melhor deste dia (e de todos os outros) somos mesmo nós, por sermos especiais e únicos, com ou sem alguém que o confirme!


(estão a ver que, aqui a Salinha não se vestirá de rosa choque, nem de coraçoezinhos, mas deseja ardentemente que todos os vossos dias sejam felizes. :) ) 

domingo, 12 de janeiro de 2014

Devaneios | Considerações erráticas sobre orquídeas e afins

Desculpem-me aqueles que se apaixonaram pela cor do ano, mas já não posso ouvir falar de orquídea radiante (e ainda estamos em Janeiro!). Não que desgoste da cor, pelo contrário, entre verde esmeralda e um lilás arroxeado acho que sempre, desde que me lembro, preferi esta última, mas não consigo entender ou adaptar como minha a ideia de um tom definido para um determinado ano. Definido por quem? Para quê? E, acima de tudo, porquê? Sou um bicho estranho que gosta de perceber bem a razão (por mais emocional e não racional que seja, por vezes) de tudo aquilo em que acredito e sigo. Nesta, eu não alinho.

Associar uma cor a determinada causa acho até, do ponto de vista da comunicação, algo interessante. O cor de rosa, pela luta contra o câncro da mama, o verde, pelo ambiente e até o preto, pelo luto, têm um determinado fim ou uma cultura subjacente. Agora, porquê a necessidade de saturar um ano, 365 dias e milhares de marcas e produtos com uma só tendência? E quem está por detrás disso (E não me venham dizer Pantone, que essa é só a cara do movimento)?

É para renovarmos o nosso armário, porque o verde, meu deus, já está démodé em 2014?  Não sei se vos acontece, mas o meu é bem constante há muitos anos. Há tons, vários, que me acompanham e outros, tantos, que são os que gosto mais, independentemente daquilo que é mais usado. Especialmente no Verão, é um arco-íris com as cores que me fazem sentir alegre e bem. Com orquídeas, esmeraldas, azuis, amarelos (quantos amarelos!), vermelhos, corais… enfim, estão a ver o cenário.  

Nunca fui muito de modas e, tanto na roupa como na maquilhagem (ou em tudo o resto na vida, confesso), sou mais de seguir o que a mim me dá prazer, do que os tons que ganham destaque por sabe-se lá quem (porque isto de reuniões secretas para definir o tom faz-me lembrar uma maçonaria estranha, quiçá de duendes que se escondem com um pote de ouro debaixo de um arco-íris, para decidir em que faixa colorida colocarão o dito tesouro. Muito sério, para mim, como podem ver.). Se não estiver “na moda” também não será a desgraça de ninguém.              

Fora todas estas questões, o “tom deste ano” merece o meu apreço, tão grande agora como quando eu tinha uns 13 anos e me identificava com a personagem da Claire Danes na série My so called life, com Doc Martens nos pés e uma gaveta cheia com vários tons arroxeados e lilases. Vão vê-lo pelo blog, mas só por causa disso. Usá-lo-ei em 2014, como em 2015, e nos que se seguem, como ainda adoro os azuis tão 2008, o turquesa 2005, ao amarelo 2009 ou ao coral (se aquilo o era) 2011.

Mas o que eu queria, com tudo isto, mesmo dizer (e vale o que vale) é que, como eu, não se deixem seguir por tons que outros definem como a “tendência” ( que só o conceito já teria panos para vários posts), independentemente do que vocês gostam. O nosso estilo só tem piada e é confortável na nossa pele quando é nosso, de mais ninguém, por mais rótulos que os outros lhe dêem. Se gostam do tom, porreiro, se não, não se preocupem, não precisam de ir a correr comprar produtos novos, roupa nova, ou até mudar a cor das paredes do quarto ( J ). O mundo tem muito mais beleza e é muito mais interessante com diversidade (de tudo).    

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Das pessoas | As sabichonas

Há pessoas que acham que sabem tudo. Sobre todos. Sobre o que a vida é (ou não é). Sobre o  tempo que foi e o que há-de vir. Sobre o que de mais profundo há na alma humana. Na sua e na daqueles que lhes passam à frente.

Não estou a falar daqueles que sabem muito sobre pouco. Daqueles que se especializaram em saber reconhecer, melhor do que outros, padrões, comportamentos, movimentos de pequenas partes que fazem mover o mundo. O nosso, pequenino, e o maior, com M maiúsculo. Esses, por mais que saibam muito sobre o que olham criticamente, são, muitas vezes, os primeiros a assumir, humildemente, que não sabem sobre tantas outras (muitas mais) coisas. Não sabem tudo. Mas sabem muito.

Penso nos que acham, lá está, que sabem muito sobre tudo e, especialmente, os que julgam que a sua palavra é lei. Que a forma como fazem as coisas é única possível. Que o caminho que seguiram é o único a seguir. Que o mundo só tem uma cor, a deles. Que nos acham os loucos, que vão amadurecer um dia. Que abanam a cabeça de descrédito porque somos diferentes. Os que nos olham na cara e afirmam, sem qualquer pudor, que quando lá chegarmos faremos o mesmo. Diremos o mesmo. Seremos iguais.

E aqui entra a falácia de pensamento dos que acham que sabem muito sobre tudo. Não sabem, nem imaginam, que não somos todos iguais. Que não palmilhamos os mesmos trilhos. Que não há uma só maneira de viver a vida. De pensar. De tratar os outros. De olhar o que nos rodeia. De cuidar dos próximos, dos longínquos e dos que hão-de vir. E, especialmente, de ser feliz. 

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Das pessoas | As invejosas (das más)

Há pessoas a quem um sorriso piedoso, acompanhado por um leve abanar da cabeça de descrédito, durante uns segundos, é atenção mais do que suficiente que lhes prestamos. Durante a vida esbarramos com  muitas deste tipo, a quem dedicamos mais ou menos tempo a compreender, atormentando-nos em fases mais inseguras. Mas, se há coisa que a segurança dos trinta nos traz é a desvalorização completa das acções e comentários desses seres, outrora consumidores de energia e, infelizmente, em abundância - os invejosos.

Falo aqui de uma inveja má, daquela que corrói, daquela que transmite uma energia tão negativa que parecemos envoltas num mundo de zombies sisudos e austeros, que nos comem a essência. Daquela inveja que acontece porque sim, porque quem a sente tem de sentir, por tudo o que façamos ou não façamos, pelos pormenores aos quais ninguém liga, pelo ser que se é. A que vem, também, muitas vezes sem darmos conta, em olhares maldosos para os nossos sorrisos, a comentários de desdém para com os nossos sucessos. Mesmo por aqueles que nos rodeiam (e nos quais, supostamente, deveríamos confiar).

Há pessoas a quem incomodamos só porque sim, só porque existimos e tentamos fazer da nossa vida aquilo que sempre quisemos. Incomodamos só porque lutamos e a nossa luta, embora não seja para todos, é desejada por muitos, até por aqueles que não a quiseram, mas, caramba, mais ninguém a deveria querer. Arriscar, ser feliz, tentar voar é humano, mas, se há aqueles que nos apoiam com abraços e carinho, também os há que se escondem (ou não) na obscuridade para se rir dos tropeções, das escorregadelas, dos passos atrás que as caminhadas que valem a pena sempre têm.

Enquanto adolescentes, em crescimento, e não nos conhecemos bem, nem aos outros, a inveja pode ser avassaladora e a tentativa de compreender a razão que leva as pessoas a serem o que são para nós pode ser desgastante, numa vida em que cada passo é medido para não incomodar ninguém.  Deixamos de sorrir porque "já pensaste que a tua alegria ao acordar pode incomodar os outros que acordam de mau-humor?!", deixamos de sair porque "não gosto quando brilhas mais do que eu", deixamos de ser simpáticos naturalmente porque "é chato para mim, toda a gente gosta de ti", deixamos de ficar contentes pelos nossos feitos "porque outros vão ficar tristes". Escondemo-nos, só porque a alternativa nos parece demasiado penosa, especialmente quando não conseguimos perceber o que fizemos de errado.

O que aprendemos com a idade, e que um espírito do eu futuro nos deveria ensinar, é que o tempo mostrará que o incómodo que as pessoas, as invejosas, sentem, nada tem a ver connosco. Parte, normalmente, de processos de auto-comiseração, vitimização, inferiorização e culpa que as pessoas sentem por elas próprias. Por não conseguirem ser quem somos, por não chegarem onde chegámos (mesmo que tenham ido longe noutros caminhos), porque nunca se sentirão satisfeitos com aquilo que são ou que têm. Mesmo que tenham muito mais do que nós. Na realidade, é algo que as faz viver, uma fachada de superioridade que camufla o tormento constante que as consome. Nada tem a ver connosco. Somos apenas um bode expiatório de males dos quais não fazemos parte.

Por isso, se há coisa que os meus trinta me ensinaram é a rir de invejas alheias, destas, as que não constroem nada de bom à volta, das quais, se pudermos, nos devemos afastar. Assim, sem mais nenhum minuto gasto a pensar nelas. As que nos querem roubar os sorrisos, mas que acabam por recebê-los recheados de pena e compaixão.  Porque não valem mais do que isso. 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Disfarçar quem somos ou Valorizar o que temos de melhor?

Hoje li num blog, que eu sigo e até gosto, não me interpretem mal, mais um post de como disfarçar o corpo que se tem, como se de uma coisa tenebrosa se tratasse e fiquei, mais uma vez, arroxeada de raiva. Não totalmente roxa porque, definitivamente, não é algo que mereça assim tanto a minha atenção, mas, talvez por causa da sequência de lamúrias constantes ou atentados à saúde alheios que me têm rodeado, decidi partilhar convosco o que penso sobre o assunto.

Depois de anos e anos subjugados a uma cultura da magreza total, de Kate Moss para ainda menos pesadas, de mulheres direitíssimas e com um ar pouco saudável, foi com bastante alegria que vi emergirem como os mais bonitos e sexys do mundo corpos curvilíneos, delineados, com brilho. As campanhas Dove e tantas outras seguiram a onda dos corpos naturais, que sentem orgulho da estrutura que têm e a abraçam todos os dias. Mulheres com sorrisos na cara e segurança no caminhar. Mulheres que se querem valorizar.

Não estou com isto a dizer que devemos descurar o equilíbrio e engordar indefinidamente, porque devemos gostar de nós independentemente de tudo. Nada disso. Mas sim que a alimentação saudável e o exercício devem fazer da nossa rotina de bem-estar, de corpo e mente, e não serem os capatazes cruéis de uma dieta louca que fazemos para emagrecer x quilos e que, cumprida a meta, esquecemos. E aí engordamos tudo de novo, ficamos frustradas e lá vamos nós transformar o corpo num io-io maluco, que um dia se revoltará contra nós. A saúde deve sempre estar em primeiro lugar.

Cuidando da alimentação diariamente e fazendo exercício (que pode ser meia hora a dançar na vossa sala, sozinhas, não precisa de ser uma corrida todos os dias. Quem me conhece sabe que sou mais dancer -- o que eu salto ao som dos The Killers --  do que runner e temos de fazer o que nos dá prazer), os passos mais importantes estão dados para a aceitação do corpo que se tem e que muitas pessoas, a não ser por cirurgia estética (da qual também não sou propriamente fã, na maioria dos casos), não irão conseguir mudar.

Portanto a palavra de ordem não deveria nunca ser "disfarçar" mas sim "valorizar", "tirar proveito", "engrandecer" o que temos de melhor. Uma sublimação sensata. Do nosso corpo, da nossa felicidade, da nossa confiança e segurança. Chega de mulheres que vivem os dias frustradas porque não emagrecem independentemente do que comem, ou porque têm mais curvas que outras que comem muito mais. Porque os maridos/namorados as querem diferentes (nem vou começar por aqui, porque daria todo um post separado). Ou porque engordaram um quilo na barriga (que ninguém vê), mesmo tendo IMC 18 ou menor. Cada uma tem o seu metabolismo e não somos todas iguais. E ainda bem! Que triste seria o mundo se assim fosse.

Tendo dito isto, eu sou baixinha e em formato de pêra. Passei a minha adolescência a ouvir que bonitas são as altas e magras, ao mesmo tempo que as vendedoras das lojas me tentavam vender vestidos/saias/calças que me "disfarçassem"  ou retirassem tudo o que era curva do corpo (como se tal fosse possível!). A ouvir que o meu "problema" estava atrás, no rabiosque, que, antes de Beyoncé, Alicia Keys, Tais Araújo, Leandra Leal, Jennifer Lopez e tantas outras, era uma afronta à beleza. Era frustrante? Pois claro que era, mas felizmente cresci. Hoje vou a uma loja, visto um vestido justo (com uma cueca da Tezenis, que não marca, porque gosto de curvas bem definidas) e gosto de me ver ao espelho. Tento equilibrar o que como, mas como de tudo. Se abuso durante uns dias, compenso com mais sopas, frutas e legumes nos outros. Bebo muitos chás, dos bons, que não precisam de açúcar. Tento ter uma alimentação equilibrada, com tudo o que o meu corpo precisa. E não deixo que uns quilos a mais sejam, de todo, motivo de ansiedade, revolta ou infelicidade. Se não os perco em uma semana, num mês, perco em mais.

Sejamos então altas, baixas, direitas ou com curvas, tenhamos o cabelo encaracolado ou liso, um tom de pele mais claro ou mais escuro, valorizemos o que temos, todos os dias. Sejamos saudáveis, equilibradas e felizes porque, se há coisas que até podemos mudar temporariamente, há traços e formas que nos fazem ser quem somos, diferentes e com heranças genéticas que mais ninguém tem. Cuidemo-nos e aceitemo-nos. Acreditem, isso vale muito.Valorizemo-nos! 

sábado, 19 de outubro de 2013

Sobre o valor das coisas (que não é o seu custo)

Se alguma vez derem por mim com um olhar de autismo momentâneo, despertado por uma incredulidade de quem não sabe onde se veio meter, é porque estou, muito provavelmente, no meio de uma conversa sobre qualquer assunto que desperta o meu alter ego que cedeu ao cansaço da luta. Não é frequente, as pessoas ainda me vêem como a idealista revoltada que quer mudar o mundo (salvo seja), mas acontece. E com algumas pessoas mais vezes do que com outras. As conversas sobre dinheiro são, consistentemente, um gatilho comum.  

Na realidade , não é propriamente "falar sobre dinheiro", sobre a economia do país, ou sobre o capital em si. Mas sim a listagem vazia e autocomplacente de tudo o que se gastou, do dinheiro que se deu, ou sobre o custo de uma prenda que, "generosamente", foi oferecida. Não vejo no dinheiro em si a razão de todos os males, nem acredito que o mundo seria melhor ou pior sem ele. Não sou de todo uma purista que não gosta de gastar e que trata tudo o que é material como se do satanás se tratasse. Mas faz-me confusão a promiscuidade com que, muitas pessoas, associam o custo de algo com o seu valor.

Valor e custo de algo não são, nem nunca serão, a mesma coisa. Parece introdução à gestão ou ao marketing, algo básico, mas que muitas pessoas não sabem. Queiramos ou não. Não me interessa, portanto, quantos euros fulano ou sicrano deu por determinada coisa, mas sim o grau de satisfação que tal coisa proporciona a todos a quem afecta.  Não me interessa quem tem mais, mas sim quem sabe e quer ser mais, o que luta por ser melhor, por tentar ir além e tornar a sua vida mais do que um percurso vazio num cimento sequíssimo, que não deixa pegadas. Não me interessa quanto se tem no banco, se não se sabe dar, nem reconhecer como se ganhou (O que nem sempre depende de si mesmo, mas de outros, que passam despercebidos).

Daí o meu silêncio desistente quando, passados alguns argumentos, ainda ouço que o "dinheiro faz amigos", e que, quem não o tem, nada é. Quando, depois de me oferecerem algo que queria há muito, ouço "um pedaço de plástico tão caro" (mas, para mim, de valor incalculável). Quando gozam com alguém que reclama de 2,5€ que se pagou num café (mau), como se a pessoa fosse uma desgraçada pobretanas.

Tudo porque, quem o diz, não entende que as coisas, as acções, a vida, têm valor, que não é directamente relacionada com o custo delas, nem é igual para todos. Eu não valorizo nem um pouco algumas "extravagâncias" de outras pessoas, nem os seus carros, nem os seus telemóveis. Gosto das minhas coisas, e, quem me conhece, sabe que tão depressa me entusiasmo com algo mais caro, quanto com um quadro natural, artesanal, simples, dado com o carinho daqueles que querem, com ele, transmitir todo o amor do mundo.  Ou com a "mera" presença de alguém que vem de longe só para nos abraçar. Assim, sem preço. Mas com imenso valor.

Eu reclamaria por 2,5 € num mau café, mas não por 150 euros (ou quantos fosse, se pudesse) dados à companhia aérea que me permitiu fazer uma surpresa à minha avó nos 80 anos dela. Inesquecível. Porque tudo tem o seu valor, e há coisas que valem, e muito mais, o seu preço, independentemente de qual seja, e outras que são completamente escusadas, mesmo que custem um euro. E o dinheiro não nos vale de nada se não soubermos distingui-las. 

Por isso, se me virem no meio de uma conversa, no final de uma refeição, ou noutro momento, alienada do mundo, é porque, muito provavelmente, o valor da pessoa que há em mim se cansou de mostrar que não se interessa pelo preço que está na etiqueta com que algumas, outras, insistem em marcar a sua vida. Temos pena (ou não), mas sou assim. 
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