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quarta-feira, 23 de julho de 2014

Sou esquisitinha, sou! # 4

Não gosto de invertebrados. Não dos do chão, animais, que rastejam pela sobrevivência, por mais feios que sejam, mas daqueles que, em duas pernas, se erguem de forma escorregadia, adaptando a sua forma à dos demais, que querem agradar, sem coerência. Desses. 

Dos que não se preocupam em cuidar daquilo que são, desde que o sejam naquele momento, com aquele fim, independentemente de terem sido outra coisa, noutro contexto. Dos que não assumem. Dos que não têm o que assumir, que a própria existência é um grande ponto de interrogação pronto a servir as vontades momentâneas de outros, para os outros. Mesmo que se contradigam.  

Dos que não têm coluna vertebral de ideias, convicções, opiniões e pensamentos. Porque defender algo pode trazer inimizades. Dos que são um enorme boneco fugidio no qual não se pode confiar, nem esperar algo de lógico. Desses. 

segunda-feira, 10 de março de 2014

Das pessoas | A compaixão vazia e a solidariedade fotogénica

Toda a comoção e a indignação que tem movido o Facebook em torno da sessão fotográfica com a Rita Pereira levou-me a, passados meses de clausura e introspeção sobre evoluções e passos que somos obrigados a dar na vida, escrever sobre o que trago em mim de um espaço que também se tornou meu, onde deixei parte de quem era e trouxe muito do que sou hoje, Cabo Verde. Explico-vos porquê.

Dizem que África nos molda, nos tolda, e nos deixa órfãos quando nos vamos embora. Eu nunca acreditei, nem subscrevo, assumpções tão generalistas que partem imediatamente do princípio que um continente, tão vasto em culturas, mentalidades, povos, formas de viver, quantos os quilómetros que separam países e meridianos que os ultrapassam, é todo igual. Não é. Dizê-lo, de boca cheia, parece-me sempre tão acertado e sério quanto dizerem que nós, portugueses, e os polacos são iguais, e que a Europa de uns é igual à dos outros. Disparatado.

E, contudo, Cabo Verde, do qual posso falar, deixou-me assim, moldada, toldada, órfã de uma terra que não era minha, que me maltratou no primeiro ano e que passei a adorar. Tanto quanto aqueles amores estranhos, loucos, que se entranham e dos quais só nos apercebemos quando se foram embora. Ou quando partimos, que foi o que aconteceu, no meu caso. A vida é de evolução, e a minha estava num afastamento que, fossem outras as condições, nunca teria acontecido. Mas não são. Se há semana que passa em que não penso nas gentes, no Sol, na calma e simplicidade de uma vida tão própria? Não há. Se sinto aquele aperto para voltar, já amanhã, e abraçar o que de mim deixei lá, aqueles cujas vidas tocaram na minha e me fizeram crescer, viver, saborear risos e partilhar frustrações, gritar com o mundo mais petulante e chorar ao lado dos que se esforçam por ter algo, com um ânimo de alguém que só de si se vale? Sinto. Muito.

Há qualquer coisa naquela terra, árida na maior parte do tempo, naquelas pessoas, cuja morabeza não é a dos hotéis, nem a que romanticamente idealizamos, que entra em nós e nos faz sentir aliens perdidos no meio de comunidades, outras, materialistas, individualistas, com egos que se medem pelas contas bancárias. O regresso foi um choque. Confesso. Deixar amigos para trás, que ganharam lugar cativo no meu coração, com preocupações dignas de seres humanos, completos, que lutam, que sabem distinguir o valor das coisas, e das pessoas, e sentar-me à mesa de quem mede forças pelo preço do que compra, do que tem, é algo que tem tanto de inexplicável, quanto de penoso. Aqui estou eu, mais de um ano depois, a assumi-lo. O problema não eram os outros, esses estavam iguais, era eu, diferente, não apenas num rosto mais cansado, mais maduro, com a pele de quem viveu anos debaixo de um Sol  mais claro, mais baixo, mais quente, mas também nuns olhos que viram o que é viver sem nada, ali ao lado, e um coração que não queria suportar o regresso, que anseia por voltar, que se sente perdido no meio de outros, pequeninos, que se julgam muito maiores do que são. E nem percebem como estão errados. Não estou melhor, nem pior, estou diferente.

Por isso, e chegando às malfadadas fotos que circulam por aí, custa-me o extremo mau gosto da campanha (da qual não entendo a razão e, quando assim é, significa que a estratégia de comunicação não foi tão bem desenhada quando podia), mas ainda mais os comentários de comiseração bacoca, compaixão de uma superioridade ignorante, que tratam as pessoas como se de "coitadinhos" se tratassem. E daqui parte um dos primeiros erros e sentimentos que não se deveriam nutrir pelos outros. A comiseração misturada com uma pena que, no desconhecimento, nos faz sentir defensores de causas, na net, por escrito, mascarados por identidades virtuais, fachadas essas com as quais podemos ser este mundo, e o outro (que a ser, sê-se em grande). Revoltamo-nos, julgamos a modelo que lá está no meio como se o diabo fosse, porque “coitadinhos” dos que estavam à volta, perante tanta opulência, tanta riqueza, no meio de quem nada tem.

Não direi, com isto, que não vi muita "miséria" em Cabo Verde. Vi. Crianças com roupa rota, a jogar com uma bola feita de trapos, descalças (se algum ser que se julgasse superior me visse, nos anos oitenta, na aldeia da minha avó, a brincar com a minha prima, descalças, sujas, na terra, também nos fotografaria). Mais meninos de rua, sozinhos, do que alguma vez deveria ser permitido (porque até um já é demasiado). Casas por construir, por terminar. Comida que escasseia em muitos pratos e escolas demasiado longe para muitos alunos, que têm de andar quilómetros a pé, faça sol ou chuva (e em Cabo Verde isto significa terra alagada e muita lama, escorregadia naqueles montes do interior de Santiago). O cansaço na vendedora de rua, que lá está o dia todo (todo! Não as quarenta horas semanais, nem algumas horas extra, tão penosas e queixosas para alguns, que acham que são desgraçadinhos a trabalhar, mesmo por conta própria, para terem “coisas” topo de gama) para conseguir dar aos filhos, que a ajudam quando podem, um futuro melhor. Jovens que batalham com a força de heróis para conseguirem ir longe, simplesmente para serem quem querem ser, quem sonharam ser, já que não podem contar com mais alguém a não ser com eles próprios. E noutros países haverá, com certeza, ainda mais. Mas “coitadinhos”? “Coitadinhos” não são. Até é ofensivo.

A distribuição de riquezas mundial é, de facto, assustadora e revoltante. Não temos uma real noção de quanto até abrirmos as mentes e nos confrontarmos, in loco, com ela, olharmo-la nos olhos e identificarmos a sua verdadeira alma, diabólica. Um dia, um aluno meu disse-me que tinha sido Deus a fazer com que algumas pessoas nascessem num país com tantas faltas, onde a chuva não cai, a comida não abunda, no mar nem um pocinho de petróleo se encontra. Pequenino, já que o país também não é grande. Sorri, tentei explicar-lhe que não. Mas como perceber, eu, que vivi sempre com electricidade e o conforto de um banho quente matinal, a visão de quem se habituou a conhecer outro mundo, o nosso, nas palavras de emigrantes, nas fotos ou na televisão, quando havia? Fiquei com vontade de pegar nas fortunas da ínfima percentagem dos grupos e pessoas que seguram as cordas do mundo, e espalhá-las por ali. Mas não tenho como. Infelizmente. Só posso fazer o que está ao meu alcance. 

Não trouxe, contudo, comigo, a ideia de um povo e de uma comunidade merecedores de uma pena vazia. Isenta de acções. Muitas vezes, resultado apenas de uma noção de consideração mínima da regra do politicamente correcto, totalmente desprovida de fundo de valor. Revolta-me a hipocrisia, muitas vezes incorporada ao ponto de nos acharmos repletos de uma compaixão que nos faz dignos de um pedaço do céu, ao ponto de me gerar náuseas. Sinto que é o Cabo Verde que se entranhou em mim que me faz ficar fisicamente incomodada com o coração oco alheio, aquele que faz mal ao próximo e defende, porque está longe, o outro, só porque tem um tom de pele que, mediaticamente, fica bem associado com a solidariedade e caridade.

O mundo evoluirá quando nos olharmos como iguais, e não uns de um pedestal sobre os outros, os “coitados”. Há gente que precisa, muito, da nossa partilha, onde quer que esteja, mesmo que seja aqui ao lado de casa. Cada um de nós sabe como essa parceria pela humanidade pode ser feita; cada um dá o que tem e sabe. E há gente muito feliz e muito lutadora mesmo sem o último telemóvel ou carro topo de gama (ou mesmo sem nenhum, acreditem). Ou sem vestir as marcas x ou y da moda, porque fica mal não as usar, já que todos os outros têm. Satisfeitos com o que têm, com a vida que levam, simples e humilde, mas nas quais há espaço para a família, que apoiam e para a qual estão presentes, naturalmente, assim, de braços honestamente abertos, porque ela vem sempre em primeiro lugar. E não estou a falar num núcleo pequeno, mas de uma colaboração entre primos, tios, sobrinhos, que, em alguns casos, chega às dezenas. Há de tudo, em todo o lado, de todas as cores, de todos os feitios.

Ninguém nos fez donos da sapiência superior, nem dignos de julgarmos os outros por terem vidas, hábitos e mentalidades diferentes dos nossos. Muito menos de manter estereótipos de uma "miséria" que é foto e videogénica, ao mesmo tempo que nada fazemos para estender a mão ao outro. Numa das letras de uma das minhas músicas cabo-verdianas favoritas, a Mnine de Rua, dos Cordas do Sol, encontramos, a determinada altura, esta frase: “Es e mnine d'rua ma es meste nos tude/ Ai munde, Ai Munde/ Un kalker d'nos pudia ser mnine d'rua” (É menino de rua, mas precisa de todos nós /Ai mundo, ai mundo / Qualquer um de nós podia ser menino de rua). E, para mim, é daqui que devia partir a ajuda, a parceria global, o voluntariado e a mão estendida, ao lado, não por cima, não com a compaixão que “fica tão bem”. Porque, lembrem-se “qualquer um de nós podia ser menino de rua”. E se fôssemos, queríamos ser tratados como “coitadinhos”, especialmente por quem pouco faz por nos conhecer? 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Das pessoas | As calhandeiras de língua bifurcada

Há pessoas que gostam de falar muito. Sobre tudo. Especialmente sobre a vida dos outros. Pessoas para quem o diz que disse do foi não foi ganha a importância de uma declaração de um tratado de paz, ou, melhor de início de hostilidades, como tanto gostam. Pessoas a quem importa o que aconteceu, o que não aconteceu e, principalmente, a história mirabolante daquilo que poderia ter acontecido. A veracidade é, para elas, tão relevante quanto um guarda-chuva num dia de sol.

Há pessoas que são ouvidos, outras boca, algumas não querem nem saber e há as universais, que são tudo e mais alguma coisa. Não contentes em focinhar meandros que não lhes pertencem, absorvem o que podem (ou o que querem, da maneira que mais lhes aprouver), criando o veneno adequado ao interlocutor escolhido, que escorre das suas línguas bifurcadas. Acham-se senhoras, as pessoas, estas, daquilo que afirmam com convicção, pensando, com isso, estar acima dos mundos que vão partilhando por aí. Mas quanto se enganam.

Há pessoas que ouvem, e partilham, e adulteram o que já interpretaram de forma adulterada. Juízes das palavras e acções que outros, os pobres crentes, tiveram o azar de partilhar (ou não, porque se não se encontra a informação, há sempre forma de a criar). Para quem o alento de uma maledicência enche uma alma vazia, desprovida de sentido. Espírito inútil que se alimenta de enredos alheios para esconder a solidão e frustração de uma vida pálida e acinzentada. Sem cor, nem brilho, nem felicidade.  

A Ellen Page disse, na sua declaração recente, brilhante, que "o mundo seria bem melhor se nos esforçássemos para ser menos horríveis com os outros". Podíamos, devíamos, começar por aí. Deixar de lado a tendência sedutora dos dedos apontados, dos julgamentos de vidas outras, do complexo de divindade descida à Terra, melhor do que os outros, das palavras ocas jogadas ao vento, ou à mente de quem quer ser envenenado. A comunicação tem fins muito mais nobres que esse. Um deles, simples, é, na dúvida, questionar sobre a veracidade das palavras ouvidas por aí e, já agora, calar antes de afirmarmos o “certo” sem fundamento. A sociedade agradece. 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Das pessoas | As sabichonas

Há pessoas que acham que sabem tudo. Sobre todos. Sobre o que a vida é (ou não é). Sobre o  tempo que foi e o que há-de vir. Sobre o que de mais profundo há na alma humana. Na sua e na daqueles que lhes passam à frente.

Não estou a falar daqueles que sabem muito sobre pouco. Daqueles que se especializaram em saber reconhecer, melhor do que outros, padrões, comportamentos, movimentos de pequenas partes que fazem mover o mundo. O nosso, pequenino, e o maior, com M maiúsculo. Esses, por mais que saibam muito sobre o que olham criticamente, são, muitas vezes, os primeiros a assumir, humildemente, que não sabem sobre tantas outras (muitas mais) coisas. Não sabem tudo. Mas sabem muito.

Penso nos que acham, lá está, que sabem muito sobre tudo e, especialmente, os que julgam que a sua palavra é lei. Que a forma como fazem as coisas é única possível. Que o caminho que seguiram é o único a seguir. Que o mundo só tem uma cor, a deles. Que nos acham os loucos, que vão amadurecer um dia. Que abanam a cabeça de descrédito porque somos diferentes. Os que nos olham na cara e afirmam, sem qualquer pudor, que quando lá chegarmos faremos o mesmo. Diremos o mesmo. Seremos iguais.

E aqui entra a falácia de pensamento dos que acham que sabem muito sobre tudo. Não sabem, nem imaginam, que não somos todos iguais. Que não palmilhamos os mesmos trilhos. Que não há uma só maneira de viver a vida. De pensar. De tratar os outros. De olhar o que nos rodeia. De cuidar dos próximos, dos longínquos e dos que hão-de vir. E, especialmente, de ser feliz. 

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Das pessoas | As invejosas (das más)

Há pessoas a quem um sorriso piedoso, acompanhado por um leve abanar da cabeça de descrédito, durante uns segundos, é atenção mais do que suficiente que lhes prestamos. Durante a vida esbarramos com  muitas deste tipo, a quem dedicamos mais ou menos tempo a compreender, atormentando-nos em fases mais inseguras. Mas, se há coisa que a segurança dos trinta nos traz é a desvalorização completa das acções e comentários desses seres, outrora consumidores de energia e, infelizmente, em abundância - os invejosos.

Falo aqui de uma inveja má, daquela que corrói, daquela que transmite uma energia tão negativa que parecemos envoltas num mundo de zombies sisudos e austeros, que nos comem a essência. Daquela inveja que acontece porque sim, porque quem a sente tem de sentir, por tudo o que façamos ou não façamos, pelos pormenores aos quais ninguém liga, pelo ser que se é. A que vem, também, muitas vezes sem darmos conta, em olhares maldosos para os nossos sorrisos, a comentários de desdém para com os nossos sucessos. Mesmo por aqueles que nos rodeiam (e nos quais, supostamente, deveríamos confiar).

Há pessoas a quem incomodamos só porque sim, só porque existimos e tentamos fazer da nossa vida aquilo que sempre quisemos. Incomodamos só porque lutamos e a nossa luta, embora não seja para todos, é desejada por muitos, até por aqueles que não a quiseram, mas, caramba, mais ninguém a deveria querer. Arriscar, ser feliz, tentar voar é humano, mas, se há aqueles que nos apoiam com abraços e carinho, também os há que se escondem (ou não) na obscuridade para se rir dos tropeções, das escorregadelas, dos passos atrás que as caminhadas que valem a pena sempre têm.

Enquanto adolescentes, em crescimento, e não nos conhecemos bem, nem aos outros, a inveja pode ser avassaladora e a tentativa de compreender a razão que leva as pessoas a serem o que são para nós pode ser desgastante, numa vida em que cada passo é medido para não incomodar ninguém.  Deixamos de sorrir porque "já pensaste que a tua alegria ao acordar pode incomodar os outros que acordam de mau-humor?!", deixamos de sair porque "não gosto quando brilhas mais do que eu", deixamos de ser simpáticos naturalmente porque "é chato para mim, toda a gente gosta de ti", deixamos de ficar contentes pelos nossos feitos "porque outros vão ficar tristes". Escondemo-nos, só porque a alternativa nos parece demasiado penosa, especialmente quando não conseguimos perceber o que fizemos de errado.

O que aprendemos com a idade, e que um espírito do eu futuro nos deveria ensinar, é que o tempo mostrará que o incómodo que as pessoas, as invejosas, sentem, nada tem a ver connosco. Parte, normalmente, de processos de auto-comiseração, vitimização, inferiorização e culpa que as pessoas sentem por elas próprias. Por não conseguirem ser quem somos, por não chegarem onde chegámos (mesmo que tenham ido longe noutros caminhos), porque nunca se sentirão satisfeitos com aquilo que são ou que têm. Mesmo que tenham muito mais do que nós. Na realidade, é algo que as faz viver, uma fachada de superioridade que camufla o tormento constante que as consome. Nada tem a ver connosco. Somos apenas um bode expiatório de males dos quais não fazemos parte.

Por isso, se há coisa que os meus trinta me ensinaram é a rir de invejas alheias, destas, as que não constroem nada de bom à volta, das quais, se pudermos, nos devemos afastar. Assim, sem mais nenhum minuto gasto a pensar nelas. As que nos querem roubar os sorrisos, mas que acabam por recebê-los recheados de pena e compaixão.  Porque não valem mais do que isso. 
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