UA-40840920-1
Mostrar mensagens com a etiqueta Alienações. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alienações. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 10 de março de 2014

Das pessoas | A compaixão vazia e a solidariedade fotogénica

Toda a comoção e a indignação que tem movido o Facebook em torno da sessão fotográfica com a Rita Pereira levou-me a, passados meses de clausura e introspeção sobre evoluções e passos que somos obrigados a dar na vida, escrever sobre o que trago em mim de um espaço que também se tornou meu, onde deixei parte de quem era e trouxe muito do que sou hoje, Cabo Verde. Explico-vos porquê.

Dizem que África nos molda, nos tolda, e nos deixa órfãos quando nos vamos embora. Eu nunca acreditei, nem subscrevo, assumpções tão generalistas que partem imediatamente do princípio que um continente, tão vasto em culturas, mentalidades, povos, formas de viver, quantos os quilómetros que separam países e meridianos que os ultrapassam, é todo igual. Não é. Dizê-lo, de boca cheia, parece-me sempre tão acertado e sério quanto dizerem que nós, portugueses, e os polacos são iguais, e que a Europa de uns é igual à dos outros. Disparatado.

E, contudo, Cabo Verde, do qual posso falar, deixou-me assim, moldada, toldada, órfã de uma terra que não era minha, que me maltratou no primeiro ano e que passei a adorar. Tanto quanto aqueles amores estranhos, loucos, que se entranham e dos quais só nos apercebemos quando se foram embora. Ou quando partimos, que foi o que aconteceu, no meu caso. A vida é de evolução, e a minha estava num afastamento que, fossem outras as condições, nunca teria acontecido. Mas não são. Se há semana que passa em que não penso nas gentes, no Sol, na calma e simplicidade de uma vida tão própria? Não há. Se sinto aquele aperto para voltar, já amanhã, e abraçar o que de mim deixei lá, aqueles cujas vidas tocaram na minha e me fizeram crescer, viver, saborear risos e partilhar frustrações, gritar com o mundo mais petulante e chorar ao lado dos que se esforçam por ter algo, com um ânimo de alguém que só de si se vale? Sinto. Muito.

Há qualquer coisa naquela terra, árida na maior parte do tempo, naquelas pessoas, cuja morabeza não é a dos hotéis, nem a que romanticamente idealizamos, que entra em nós e nos faz sentir aliens perdidos no meio de comunidades, outras, materialistas, individualistas, com egos que se medem pelas contas bancárias. O regresso foi um choque. Confesso. Deixar amigos para trás, que ganharam lugar cativo no meu coração, com preocupações dignas de seres humanos, completos, que lutam, que sabem distinguir o valor das coisas, e das pessoas, e sentar-me à mesa de quem mede forças pelo preço do que compra, do que tem, é algo que tem tanto de inexplicável, quanto de penoso. Aqui estou eu, mais de um ano depois, a assumi-lo. O problema não eram os outros, esses estavam iguais, era eu, diferente, não apenas num rosto mais cansado, mais maduro, com a pele de quem viveu anos debaixo de um Sol  mais claro, mais baixo, mais quente, mas também nuns olhos que viram o que é viver sem nada, ali ao lado, e um coração que não queria suportar o regresso, que anseia por voltar, que se sente perdido no meio de outros, pequeninos, que se julgam muito maiores do que são. E nem percebem como estão errados. Não estou melhor, nem pior, estou diferente.

Por isso, e chegando às malfadadas fotos que circulam por aí, custa-me o extremo mau gosto da campanha (da qual não entendo a razão e, quando assim é, significa que a estratégia de comunicação não foi tão bem desenhada quando podia), mas ainda mais os comentários de comiseração bacoca, compaixão de uma superioridade ignorante, que tratam as pessoas como se de "coitadinhos" se tratassem. E daqui parte um dos primeiros erros e sentimentos que não se deveriam nutrir pelos outros. A comiseração misturada com uma pena que, no desconhecimento, nos faz sentir defensores de causas, na net, por escrito, mascarados por identidades virtuais, fachadas essas com as quais podemos ser este mundo, e o outro (que a ser, sê-se em grande). Revoltamo-nos, julgamos a modelo que lá está no meio como se o diabo fosse, porque “coitadinhos” dos que estavam à volta, perante tanta opulência, tanta riqueza, no meio de quem nada tem.

Não direi, com isto, que não vi muita "miséria" em Cabo Verde. Vi. Crianças com roupa rota, a jogar com uma bola feita de trapos, descalças (se algum ser que se julgasse superior me visse, nos anos oitenta, na aldeia da minha avó, a brincar com a minha prima, descalças, sujas, na terra, também nos fotografaria). Mais meninos de rua, sozinhos, do que alguma vez deveria ser permitido (porque até um já é demasiado). Casas por construir, por terminar. Comida que escasseia em muitos pratos e escolas demasiado longe para muitos alunos, que têm de andar quilómetros a pé, faça sol ou chuva (e em Cabo Verde isto significa terra alagada e muita lama, escorregadia naqueles montes do interior de Santiago). O cansaço na vendedora de rua, que lá está o dia todo (todo! Não as quarenta horas semanais, nem algumas horas extra, tão penosas e queixosas para alguns, que acham que são desgraçadinhos a trabalhar, mesmo por conta própria, para terem “coisas” topo de gama) para conseguir dar aos filhos, que a ajudam quando podem, um futuro melhor. Jovens que batalham com a força de heróis para conseguirem ir longe, simplesmente para serem quem querem ser, quem sonharam ser, já que não podem contar com mais alguém a não ser com eles próprios. E noutros países haverá, com certeza, ainda mais. Mas “coitadinhos”? “Coitadinhos” não são. Até é ofensivo.

A distribuição de riquezas mundial é, de facto, assustadora e revoltante. Não temos uma real noção de quanto até abrirmos as mentes e nos confrontarmos, in loco, com ela, olharmo-la nos olhos e identificarmos a sua verdadeira alma, diabólica. Um dia, um aluno meu disse-me que tinha sido Deus a fazer com que algumas pessoas nascessem num país com tantas faltas, onde a chuva não cai, a comida não abunda, no mar nem um pocinho de petróleo se encontra. Pequenino, já que o país também não é grande. Sorri, tentei explicar-lhe que não. Mas como perceber, eu, que vivi sempre com electricidade e o conforto de um banho quente matinal, a visão de quem se habituou a conhecer outro mundo, o nosso, nas palavras de emigrantes, nas fotos ou na televisão, quando havia? Fiquei com vontade de pegar nas fortunas da ínfima percentagem dos grupos e pessoas que seguram as cordas do mundo, e espalhá-las por ali. Mas não tenho como. Infelizmente. Só posso fazer o que está ao meu alcance. 

Não trouxe, contudo, comigo, a ideia de um povo e de uma comunidade merecedores de uma pena vazia. Isenta de acções. Muitas vezes, resultado apenas de uma noção de consideração mínima da regra do politicamente correcto, totalmente desprovida de fundo de valor. Revolta-me a hipocrisia, muitas vezes incorporada ao ponto de nos acharmos repletos de uma compaixão que nos faz dignos de um pedaço do céu, ao ponto de me gerar náuseas. Sinto que é o Cabo Verde que se entranhou em mim que me faz ficar fisicamente incomodada com o coração oco alheio, aquele que faz mal ao próximo e defende, porque está longe, o outro, só porque tem um tom de pele que, mediaticamente, fica bem associado com a solidariedade e caridade.

O mundo evoluirá quando nos olharmos como iguais, e não uns de um pedestal sobre os outros, os “coitados”. Há gente que precisa, muito, da nossa partilha, onde quer que esteja, mesmo que seja aqui ao lado de casa. Cada um de nós sabe como essa parceria pela humanidade pode ser feita; cada um dá o que tem e sabe. E há gente muito feliz e muito lutadora mesmo sem o último telemóvel ou carro topo de gama (ou mesmo sem nenhum, acreditem). Ou sem vestir as marcas x ou y da moda, porque fica mal não as usar, já que todos os outros têm. Satisfeitos com o que têm, com a vida que levam, simples e humilde, mas nas quais há espaço para a família, que apoiam e para a qual estão presentes, naturalmente, assim, de braços honestamente abertos, porque ela vem sempre em primeiro lugar. E não estou a falar num núcleo pequeno, mas de uma colaboração entre primos, tios, sobrinhos, que, em alguns casos, chega às dezenas. Há de tudo, em todo o lado, de todas as cores, de todos os feitios.

Ninguém nos fez donos da sapiência superior, nem dignos de julgarmos os outros por terem vidas, hábitos e mentalidades diferentes dos nossos. Muito menos de manter estereótipos de uma "miséria" que é foto e videogénica, ao mesmo tempo que nada fazemos para estender a mão ao outro. Numa das letras de uma das minhas músicas cabo-verdianas favoritas, a Mnine de Rua, dos Cordas do Sol, encontramos, a determinada altura, esta frase: “Es e mnine d'rua ma es meste nos tude/ Ai munde, Ai Munde/ Un kalker d'nos pudia ser mnine d'rua” (É menino de rua, mas precisa de todos nós /Ai mundo, ai mundo / Qualquer um de nós podia ser menino de rua). E, para mim, é daqui que devia partir a ajuda, a parceria global, o voluntariado e a mão estendida, ao lado, não por cima, não com a compaixão que “fica tão bem”. Porque, lembrem-se “qualquer um de nós podia ser menino de rua”. E se fôssemos, queríamos ser tratados como “coitadinhos”, especialmente por quem pouco faz por nos conhecer? 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Telegrama à Coragem

Há dias assim, em que o único som que ouvimos, muito ao longe, como se estivesse noutro espaço, noutra era, é o bater de um tempo que suaviza por momentos, e nos faz flutuar. Em que os arrepios nos fazem querer ficar, parados, até sermos tocados, envolvidos, abraçados profundamente, como se nunca aqui estivéssemos, mas sim ali, onde nunca deixámos de estar. Em que os dias que nos apagariam da memória, e nos tornariam meras imagens fugazes daquilo que um dia quisemos ser, se afastam para onde vai tudo aquilo que jamais acontecerá, perdendo-se no temor de um salto no vazio. Em que os medos, por momentos, desaparecem com a rapidez de um sorriso, e a profundidade de uns olhos que são livres dos grilhões impostos por uma mente complexa, fechada dentro de si própria, travando discussões acesas entre o ser, ou não ser. Deixamos escapar o brilho do que se sente, assim, sem proferir uma única palavra, olhando, apenas, com a vontade de divagar entre as curvas do horizonte. Há dias em que todas as cores parecem fundir-se num longo caminho, a percorrer calmamente, sem medo, retirando de cada passo a sabedoria de uma vida, respirando, até à meta, até ao futuro, que será sempre nosso. Há dias só teus.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Das pessoas | As calhandeiras de língua bifurcada

Há pessoas que gostam de falar muito. Sobre tudo. Especialmente sobre a vida dos outros. Pessoas para quem o diz que disse do foi não foi ganha a importância de uma declaração de um tratado de paz, ou, melhor de início de hostilidades, como tanto gostam. Pessoas a quem importa o que aconteceu, o que não aconteceu e, principalmente, a história mirabolante daquilo que poderia ter acontecido. A veracidade é, para elas, tão relevante quanto um guarda-chuva num dia de sol.

Há pessoas que são ouvidos, outras boca, algumas não querem nem saber e há as universais, que são tudo e mais alguma coisa. Não contentes em focinhar meandros que não lhes pertencem, absorvem o que podem (ou o que querem, da maneira que mais lhes aprouver), criando o veneno adequado ao interlocutor escolhido, que escorre das suas línguas bifurcadas. Acham-se senhoras, as pessoas, estas, daquilo que afirmam com convicção, pensando, com isso, estar acima dos mundos que vão partilhando por aí. Mas quanto se enganam.

Há pessoas que ouvem, e partilham, e adulteram o que já interpretaram de forma adulterada. Juízes das palavras e acções que outros, os pobres crentes, tiveram o azar de partilhar (ou não, porque se não se encontra a informação, há sempre forma de a criar). Para quem o alento de uma maledicência enche uma alma vazia, desprovida de sentido. Espírito inútil que se alimenta de enredos alheios para esconder a solidão e frustração de uma vida pálida e acinzentada. Sem cor, nem brilho, nem felicidade.  

A Ellen Page disse, na sua declaração recente, brilhante, que "o mundo seria bem melhor se nos esforçássemos para ser menos horríveis com os outros". Podíamos, devíamos, começar por aí. Deixar de lado a tendência sedutora dos dedos apontados, dos julgamentos de vidas outras, do complexo de divindade descida à Terra, melhor do que os outros, das palavras ocas jogadas ao vento, ou à mente de quem quer ser envenenado. A comunicação tem fins muito mais nobres que esse. Um deles, simples, é, na dúvida, questionar sobre a veracidade das palavras ouvidas por aí e, já agora, calar antes de afirmarmos o “certo” sem fundamento. A sociedade agradece. 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Séries | A mulher polícia de salto alto e coração na boca

(este post pode conter spoilers a título de exemplo de Homeland e Bones)

Não gosto do sexismo nas séries. Pronto. Tenho dito e assumido. É algo que me revolta até ao mais profundo do meu âmago, me dá a volta ao estômago e me põe verde de raiva. Quando, então, acontece em séries que comecei a seguir e até a gostar, que me dão a impressão, à primeira vista, de serem diferentes, ainda pior.

Vão dizer que é comum, normal, e que as séries (e toda a produção cinematográfica, convenhamos) são fruto de um contexto social e reflectem, como tal, os valores e hábitos da sociedade na qual se insere. Mesmo muitas, que pretendem ser, de alguma forma, diferentes, acabam por, em temporadas seguintes, dar uma guinada conservadora, dentro do sistema, do comum intocável. Vimos a Bones nos primeiros episódios como uma mulher determinada, racional, criticada até por demasiado crítica e insensível. Vimo-la rodeada por um grupo de cientistas entre os quais Hodgins, que, de quando em vez, lá se mostrava anti-sistema e fã dos que muitos chamam de Teoria da Conspiração. Independentes. Além do clima de romance entre o Booth e a Brennan, quem iria, então, pensar que, mais tarde, ela se tornaria numa mulher que quer casar, constituir a família “comum”, numa série com nuances de um nacionalismo bacoco do “God save America”? Talvez tenham pensado nisso, mas eu não. Quero sempre acreditar que me podem surpreender, e muito, pela positiva.

Em vários exemplos de séries de polícias (confesso que é um género que me agrada bastante, para vegetar em frente à TV ou ao computador), vemos muitas vezes a mulher sensualizada, sexualizada, completamente incoerente com o papel que desempenha. Não me esqueço de um determinado episódio do CSI Miami em que uma das personagens femininas, da equipa de investigação criminal, se desloca a uma cena de incêndio com um fato todo cintado branco. Branco, sublinho. Numa zona cheia de cinzas?! Francamente.

Quantas vezes não vemos, também, polícias ou investigadoras de saltos altos, extremamente maquilhadas, sempre com roupas bem reveladoras do corpo e com o cabelo sempre muito bem arranjado? Estou a lembrar-me da Caleigh e da Boa Vista do CSI Miami, que vivem a combater criminosos no topo dos seus saltos agulha; da JJ, da Prentiss, que fazem directas mas que nunca estão com olheiras; da Penelope Garcia que, à sua maneira, cumpre 48 horas de trabalho directo sem uma sombra esborrada ou verniz descascado, sempre ultra produzida; da Chandler e da Vargas, embora com roupa mais confortável; da Rizzoli e de tantas outras, sempre com tops justos e decotados, por oposição aos homens, de fato e gravata, com o ar mais sério do mundo; com o cabelo fora do sítio e barba por fazer quando tem de ser, quando é isso que retratam, e quase sempre nas posições de chefia.

Quando Homeland começou, achei que tinha chegado (mais uma vez, o meu lado crente), uma série que, contra todas as expectativas, tinha uma mulher num papel coerente, forte, determinada e determinante como funcionária da CIA. Uma espia sem ares de menininha, sem seduzir para recolher informações e, acima de tudo, de pulso firme perante os homens (os chefes, para não destoar, nem incomodar, e o suspeito) que a rodeiam. A determinada altura, mais uma vez, porque, provavelmente, as massas gostam de ver romances e mulheres sensíveis no ecrã (mas quem sou eu para especular sobre o que os outros gostam de ver, acriticamente), a mulher firme torna-se uma apaixonada inveterada, invertebrada, que se deixa levar muitas vezes pela emoção, impulsiva e de sangue quente. Que pensa numa vida a dois, que a tire da solidão e sofrimento. Com razão em muitas intuições ao nível profissional?! Com certeza. Mas “mulher” do senso comum, tradicional, na forma como é construída a personagem na segunda temporada?! Sem dúvida. 

Alguns dirão que assim é por causa da bipolaridade diagnosticada da Carrie, mas respondo-vos lembrando que a doença não explica tudo e, se queriam manter uma personagem feminina forte, poderiam ter acrescentado outra ao elenco principal. Que bem ficaria uma Quinn, no lugar do analista da equipa, ponderada, firme, assertiva, em vez do actual, a quem a Carrie reporta (mais um homem), pedido especialmente pelo Estes com um I want one of my men on the team. Força de expressão?! “Men”, tão sexista quanto o resto (diga-se o que disser, olhem lá para a sua origem).      
A mulher, agora sem aspas, deve ser valorizada nas séries e nos filmes pelo que é, como é. Pela força que a personagem tem, e não pela elasticidade da roupa que veste. Como é que nós, comuns mortais, conseguimos estar ao nível de alguém que corre, salta muros, escapa de tiros, trabalha a noite inteira perfeitas, com a base sempre no sítio e o cabelo solto, ao vento, sempre alinhado, liso sedoso ou encaracolado à babyliss (escolham)? Se não tiver o cabelo apanhado, não consigo correr ao vento sem andar constantemente a tirá-lo da boca; fico vermelha que nem um pimentinho com todo esse exercício e, convenhamos, sombra, blush, e tudo o que tiver escorrerá pela cara abaixo com o suor (ah, pois é, mas elas não suam); Se andasse a fugir pela minha vida o meu cabelo (apanhado, claro está, porque se é pela vida há que ver bem por onde se foge), no caminho, rebelar-se-ia comigo. Serei eu assim tão diferente? Não. Quem escreve o guião sabe perfeitamente qual a diferença.  E sabe bem porque o faz. Nós também. Infelizmente.

Na realidade, apesar do longo caminho já percorrido, há, de facto, muita desigualdade, muito sexismo mais ou menos camuflado, mais ou menos pensado. Falar aqui noutras esferas que não a que me fez escrever este texto, na ficção, seria tema para um blog inteiro. Não é esse o meu propósito. Mas, acreditando que a nossa relação com os media não é a passiva que outrora se acreditava ser, que temos voz e que podemos mostrar que percebemos a forma como a mulher aparece, decidi que era tempo de pôr cá para fora estas pequenas reflexões. Não sou a favor de um feminismo em que mulher deve afastar de si como se de Satanás se tratasse tudo o que é associado ao mundo feminino. Quem seria eu para ter um blog de beleza, se assim fosse. Mas acredito na escolha, na liberdade e na coerência. Em tudo. 

Perdoem-me o desabafo aquelas que ainda não se tinham apercebido e nas quais introduzi este bichinho que me revolta. Espero que um dia se apercebam, aqueles que escrevem os textos que guiam a ficção que vemos, que não estamos de olhos e mentes fechados, e que comecem a tratar as personagens femininas e as masculinas com a igualdade que merecem. E, já agora, que o espírito passe cá para fora, para a sociedade, que bem precisa.   

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Devaneios | Antevisão do que virá por aí

Ora bem, daqui a pouco mais de um mês chega o Dia de São Valentim e, antevendo já a onda "romântica" que varrerá a blogosfera e mundos afins, eis o que desejo para o dia, e para todos os outros dias do calendário:

Feliz dia dos de hoje, dos de sempre, dos ex, dos futuros, dos potenciais e de todos os que optam por estar sozinhos. Feliz dia dos que se amam a si, ao próximo ou ao longíquo. Feliz dia dos platónicos, dos racionais, dos comodistas, dos especiais e dos banais. Feliz dia dos consumistas e dos hyppies. Dos que negam, dos que choram, dos que se revoltam e dos românticos iludidos. Feliz dia porque sim, porque não, porque talvez. Dos que querem, dos que não querem e dos que não sabem sequer. Dos burros falantes e dos suricates que mordem. 

Ouçam o Respect, o I'm Every Woman ou Zé Cid (que também alegra). Vistam lingerie sexy, olhem-se no espelho e sintam-se bem. Dancem. Comam souffle de chocolate, quindins e cheesecakes. Façam jantares exóticos, com alguém ou apenas com o Malato (no regresso do qual às noites da RTP voto com convicção). Comam morangos com chocolate fundido e champanhe. Excedam-se! O melhor deste dia (e de todos os outros) somos mesmo nós, por sermos especiais e únicos, com ou sem alguém que o confirme!


(estão a ver que, aqui a Salinha não se vestirá de rosa choque, nem de coraçoezinhos, mas deseja ardentemente que todos os vossos dias sejam felizes. :) ) 

domingo, 12 de janeiro de 2014

Devaneios | Considerações erráticas sobre orquídeas e afins

Desculpem-me aqueles que se apaixonaram pela cor do ano, mas já não posso ouvir falar de orquídea radiante (e ainda estamos em Janeiro!). Não que desgoste da cor, pelo contrário, entre verde esmeralda e um lilás arroxeado acho que sempre, desde que me lembro, preferi esta última, mas não consigo entender ou adaptar como minha a ideia de um tom definido para um determinado ano. Definido por quem? Para quê? E, acima de tudo, porquê? Sou um bicho estranho que gosta de perceber bem a razão (por mais emocional e não racional que seja, por vezes) de tudo aquilo em que acredito e sigo. Nesta, eu não alinho.

Associar uma cor a determinada causa acho até, do ponto de vista da comunicação, algo interessante. O cor de rosa, pela luta contra o câncro da mama, o verde, pelo ambiente e até o preto, pelo luto, têm um determinado fim ou uma cultura subjacente. Agora, porquê a necessidade de saturar um ano, 365 dias e milhares de marcas e produtos com uma só tendência? E quem está por detrás disso (E não me venham dizer Pantone, que essa é só a cara do movimento)?

É para renovarmos o nosso armário, porque o verde, meu deus, já está démodé em 2014?  Não sei se vos acontece, mas o meu é bem constante há muitos anos. Há tons, vários, que me acompanham e outros, tantos, que são os que gosto mais, independentemente daquilo que é mais usado. Especialmente no Verão, é um arco-íris com as cores que me fazem sentir alegre e bem. Com orquídeas, esmeraldas, azuis, amarelos (quantos amarelos!), vermelhos, corais… enfim, estão a ver o cenário.  

Nunca fui muito de modas e, tanto na roupa como na maquilhagem (ou em tudo o resto na vida, confesso), sou mais de seguir o que a mim me dá prazer, do que os tons que ganham destaque por sabe-se lá quem (porque isto de reuniões secretas para definir o tom faz-me lembrar uma maçonaria estranha, quiçá de duendes que se escondem com um pote de ouro debaixo de um arco-íris, para decidir em que faixa colorida colocarão o dito tesouro. Muito sério, para mim, como podem ver.). Se não estiver “na moda” também não será a desgraça de ninguém.              

Fora todas estas questões, o “tom deste ano” merece o meu apreço, tão grande agora como quando eu tinha uns 13 anos e me identificava com a personagem da Claire Danes na série My so called life, com Doc Martens nos pés e uma gaveta cheia com vários tons arroxeados e lilases. Vão vê-lo pelo blog, mas só por causa disso. Usá-lo-ei em 2014, como em 2015, e nos que se seguem, como ainda adoro os azuis tão 2008, o turquesa 2005, ao amarelo 2009 ou ao coral (se aquilo o era) 2011.

Mas o que eu queria, com tudo isto, mesmo dizer (e vale o que vale) é que, como eu, não se deixem seguir por tons que outros definem como a “tendência” ( que só o conceito já teria panos para vários posts), independentemente do que vocês gostam. O nosso estilo só tem piada e é confortável na nossa pele quando é nosso, de mais ninguém, por mais rótulos que os outros lhe dêem. Se gostam do tom, porreiro, se não, não se preocupem, não precisam de ir a correr comprar produtos novos, roupa nova, ou até mudar a cor das paredes do quarto ( J ). O mundo tem muito mais beleza e é muito mais interessante com diversidade (de tudo).    

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Paixão pela/o Tango

Graças a uma amiga, a minha Black Tango da MUFE está finalmente a caminho das minhas mãos. Entretanto, no contexto, só me apetece partilhar convosco um texto meu, antigo, sobre aquela que acho umas das danças mais sensuais que existem. Espero que gostem. 

foto: fashionpolish.com


O vermelho e o negro entram em total harmonia com os corpos apaixonados que se movem freneticamente. Com a delicadeza de uma paixão contida, ele percorre suavemente a linha do peito da mulher que, em delírio, o deixa tocar o calor infernal que a envolve em chamas. Absortos naquele momento de cumplicidade única, permanecem estáticos, sentindo cada bater dos dois corações, cada palpitar de sangue naquelas veias. Num instante, agarram as mãos um do outro, deslizam com a graça de dois pássaros que se cortejam, sendo dos olhares a guerra travada entre desejo e privação. As gotas de suor deslizam, unindo-se na queda, já distantes daqueles que se completam e amam, sem cair na tentação. Firmemente, ele agarra-a pela cintura, eleva-a à glorificação de um corpo em delírio, que, em todo o seu esplendor, faz movimentar por uns abdominais e braços firmes, seguro de agradar a mulher que comanda. Os cabelos seguem as delícias dos amantes, que ora se aproximam e estagnam, num quase roçar permanente dos lábios, ora se afastam, dando liberdade ao pudor que os consome. E numa batalha constante, entre ardor e acalmia, entre desejo ardente e suplício clerical, nasce a sensualidade daquele a quem todos chamam: o Tango.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Das pessoas | As sabichonas

Há pessoas que acham que sabem tudo. Sobre todos. Sobre o que a vida é (ou não é). Sobre o  tempo que foi e o que há-de vir. Sobre o que de mais profundo há na alma humana. Na sua e na daqueles que lhes passam à frente.

Não estou a falar daqueles que sabem muito sobre pouco. Daqueles que se especializaram em saber reconhecer, melhor do que outros, padrões, comportamentos, movimentos de pequenas partes que fazem mover o mundo. O nosso, pequenino, e o maior, com M maiúsculo. Esses, por mais que saibam muito sobre o que olham criticamente, são, muitas vezes, os primeiros a assumir, humildemente, que não sabem sobre tantas outras (muitas mais) coisas. Não sabem tudo. Mas sabem muito.

Penso nos que acham, lá está, que sabem muito sobre tudo e, especialmente, os que julgam que a sua palavra é lei. Que a forma como fazem as coisas é única possível. Que o caminho que seguiram é o único a seguir. Que o mundo só tem uma cor, a deles. Que nos acham os loucos, que vão amadurecer um dia. Que abanam a cabeça de descrédito porque somos diferentes. Os que nos olham na cara e afirmam, sem qualquer pudor, que quando lá chegarmos faremos o mesmo. Diremos o mesmo. Seremos iguais.

E aqui entra a falácia de pensamento dos que acham que sabem muito sobre tudo. Não sabem, nem imaginam, que não somos todos iguais. Que não palmilhamos os mesmos trilhos. Que não há uma só maneira de viver a vida. De pensar. De tratar os outros. De olhar o que nos rodeia. De cuidar dos próximos, dos longínquos e dos que hão-de vir. E, especialmente, de ser feliz. 

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Das pessoas | As invejosas (das más)

Há pessoas a quem um sorriso piedoso, acompanhado por um leve abanar da cabeça de descrédito, durante uns segundos, é atenção mais do que suficiente que lhes prestamos. Durante a vida esbarramos com  muitas deste tipo, a quem dedicamos mais ou menos tempo a compreender, atormentando-nos em fases mais inseguras. Mas, se há coisa que a segurança dos trinta nos traz é a desvalorização completa das acções e comentários desses seres, outrora consumidores de energia e, infelizmente, em abundância - os invejosos.

Falo aqui de uma inveja má, daquela que corrói, daquela que transmite uma energia tão negativa que parecemos envoltas num mundo de zombies sisudos e austeros, que nos comem a essência. Daquela inveja que acontece porque sim, porque quem a sente tem de sentir, por tudo o que façamos ou não façamos, pelos pormenores aos quais ninguém liga, pelo ser que se é. A que vem, também, muitas vezes sem darmos conta, em olhares maldosos para os nossos sorrisos, a comentários de desdém para com os nossos sucessos. Mesmo por aqueles que nos rodeiam (e nos quais, supostamente, deveríamos confiar).

Há pessoas a quem incomodamos só porque sim, só porque existimos e tentamos fazer da nossa vida aquilo que sempre quisemos. Incomodamos só porque lutamos e a nossa luta, embora não seja para todos, é desejada por muitos, até por aqueles que não a quiseram, mas, caramba, mais ninguém a deveria querer. Arriscar, ser feliz, tentar voar é humano, mas, se há aqueles que nos apoiam com abraços e carinho, também os há que se escondem (ou não) na obscuridade para se rir dos tropeções, das escorregadelas, dos passos atrás que as caminhadas que valem a pena sempre têm.

Enquanto adolescentes, em crescimento, e não nos conhecemos bem, nem aos outros, a inveja pode ser avassaladora e a tentativa de compreender a razão que leva as pessoas a serem o que são para nós pode ser desgastante, numa vida em que cada passo é medido para não incomodar ninguém.  Deixamos de sorrir porque "já pensaste que a tua alegria ao acordar pode incomodar os outros que acordam de mau-humor?!", deixamos de sair porque "não gosto quando brilhas mais do que eu", deixamos de ser simpáticos naturalmente porque "é chato para mim, toda a gente gosta de ti", deixamos de ficar contentes pelos nossos feitos "porque outros vão ficar tristes". Escondemo-nos, só porque a alternativa nos parece demasiado penosa, especialmente quando não conseguimos perceber o que fizemos de errado.

O que aprendemos com a idade, e que um espírito do eu futuro nos deveria ensinar, é que o tempo mostrará que o incómodo que as pessoas, as invejosas, sentem, nada tem a ver connosco. Parte, normalmente, de processos de auto-comiseração, vitimização, inferiorização e culpa que as pessoas sentem por elas próprias. Por não conseguirem ser quem somos, por não chegarem onde chegámos (mesmo que tenham ido longe noutros caminhos), porque nunca se sentirão satisfeitos com aquilo que são ou que têm. Mesmo que tenham muito mais do que nós. Na realidade, é algo que as faz viver, uma fachada de superioridade que camufla o tormento constante que as consome. Nada tem a ver connosco. Somos apenas um bode expiatório de males dos quais não fazemos parte.

Por isso, se há coisa que os meus trinta me ensinaram é a rir de invejas alheias, destas, as que não constroem nada de bom à volta, das quais, se pudermos, nos devemos afastar. Assim, sem mais nenhum minuto gasto a pensar nelas. As que nos querem roubar os sorrisos, mas que acabam por recebê-los recheados de pena e compaixão.  Porque não valem mais do que isso. 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Disfarçar quem somos ou Valorizar o que temos de melhor?

Hoje li num blog, que eu sigo e até gosto, não me interpretem mal, mais um post de como disfarçar o corpo que se tem, como se de uma coisa tenebrosa se tratasse e fiquei, mais uma vez, arroxeada de raiva. Não totalmente roxa porque, definitivamente, não é algo que mereça assim tanto a minha atenção, mas, talvez por causa da sequência de lamúrias constantes ou atentados à saúde alheios que me têm rodeado, decidi partilhar convosco o que penso sobre o assunto.

Depois de anos e anos subjugados a uma cultura da magreza total, de Kate Moss para ainda menos pesadas, de mulheres direitíssimas e com um ar pouco saudável, foi com bastante alegria que vi emergirem como os mais bonitos e sexys do mundo corpos curvilíneos, delineados, com brilho. As campanhas Dove e tantas outras seguiram a onda dos corpos naturais, que sentem orgulho da estrutura que têm e a abraçam todos os dias. Mulheres com sorrisos na cara e segurança no caminhar. Mulheres que se querem valorizar.

Não estou com isto a dizer que devemos descurar o equilíbrio e engordar indefinidamente, porque devemos gostar de nós independentemente de tudo. Nada disso. Mas sim que a alimentação saudável e o exercício devem fazer da nossa rotina de bem-estar, de corpo e mente, e não serem os capatazes cruéis de uma dieta louca que fazemos para emagrecer x quilos e que, cumprida a meta, esquecemos. E aí engordamos tudo de novo, ficamos frustradas e lá vamos nós transformar o corpo num io-io maluco, que um dia se revoltará contra nós. A saúde deve sempre estar em primeiro lugar.

Cuidando da alimentação diariamente e fazendo exercício (que pode ser meia hora a dançar na vossa sala, sozinhas, não precisa de ser uma corrida todos os dias. Quem me conhece sabe que sou mais dancer -- o que eu salto ao som dos The Killers --  do que runner e temos de fazer o que nos dá prazer), os passos mais importantes estão dados para a aceitação do corpo que se tem e que muitas pessoas, a não ser por cirurgia estética (da qual também não sou propriamente fã, na maioria dos casos), não irão conseguir mudar.

Portanto a palavra de ordem não deveria nunca ser "disfarçar" mas sim "valorizar", "tirar proveito", "engrandecer" o que temos de melhor. Uma sublimação sensata. Do nosso corpo, da nossa felicidade, da nossa confiança e segurança. Chega de mulheres que vivem os dias frustradas porque não emagrecem independentemente do que comem, ou porque têm mais curvas que outras que comem muito mais. Porque os maridos/namorados as querem diferentes (nem vou começar por aqui, porque daria todo um post separado). Ou porque engordaram um quilo na barriga (que ninguém vê), mesmo tendo IMC 18 ou menor. Cada uma tem o seu metabolismo e não somos todas iguais. E ainda bem! Que triste seria o mundo se assim fosse.

Tendo dito isto, eu sou baixinha e em formato de pêra. Passei a minha adolescência a ouvir que bonitas são as altas e magras, ao mesmo tempo que as vendedoras das lojas me tentavam vender vestidos/saias/calças que me "disfarçassem"  ou retirassem tudo o que era curva do corpo (como se tal fosse possível!). A ouvir que o meu "problema" estava atrás, no rabiosque, que, antes de Beyoncé, Alicia Keys, Tais Araújo, Leandra Leal, Jennifer Lopez e tantas outras, era uma afronta à beleza. Era frustrante? Pois claro que era, mas felizmente cresci. Hoje vou a uma loja, visto um vestido justo (com uma cueca da Tezenis, que não marca, porque gosto de curvas bem definidas) e gosto de me ver ao espelho. Tento equilibrar o que como, mas como de tudo. Se abuso durante uns dias, compenso com mais sopas, frutas e legumes nos outros. Bebo muitos chás, dos bons, que não precisam de açúcar. Tento ter uma alimentação equilibrada, com tudo o que o meu corpo precisa. E não deixo que uns quilos a mais sejam, de todo, motivo de ansiedade, revolta ou infelicidade. Se não os perco em uma semana, num mês, perco em mais.

Sejamos então altas, baixas, direitas ou com curvas, tenhamos o cabelo encaracolado ou liso, um tom de pele mais claro ou mais escuro, valorizemos o que temos, todos os dias. Sejamos saudáveis, equilibradas e felizes porque, se há coisas que até podemos mudar temporariamente, há traços e formas que nos fazem ser quem somos, diferentes e com heranças genéticas que mais ninguém tem. Cuidemo-nos e aceitemo-nos. Acreditem, isso vale muito.Valorizemo-nos! 

sábado, 19 de outubro de 2013

Sobre o valor das coisas (que não é o seu custo)

Se alguma vez derem por mim com um olhar de autismo momentâneo, despertado por uma incredulidade de quem não sabe onde se veio meter, é porque estou, muito provavelmente, no meio de uma conversa sobre qualquer assunto que desperta o meu alter ego que cedeu ao cansaço da luta. Não é frequente, as pessoas ainda me vêem como a idealista revoltada que quer mudar o mundo (salvo seja), mas acontece. E com algumas pessoas mais vezes do que com outras. As conversas sobre dinheiro são, consistentemente, um gatilho comum.  

Na realidade , não é propriamente "falar sobre dinheiro", sobre a economia do país, ou sobre o capital em si. Mas sim a listagem vazia e autocomplacente de tudo o que se gastou, do dinheiro que se deu, ou sobre o custo de uma prenda que, "generosamente", foi oferecida. Não vejo no dinheiro em si a razão de todos os males, nem acredito que o mundo seria melhor ou pior sem ele. Não sou de todo uma purista que não gosta de gastar e que trata tudo o que é material como se do satanás se tratasse. Mas faz-me confusão a promiscuidade com que, muitas pessoas, associam o custo de algo com o seu valor.

Valor e custo de algo não são, nem nunca serão, a mesma coisa. Parece introdução à gestão ou ao marketing, algo básico, mas que muitas pessoas não sabem. Queiramos ou não. Não me interessa, portanto, quantos euros fulano ou sicrano deu por determinada coisa, mas sim o grau de satisfação que tal coisa proporciona a todos a quem afecta.  Não me interessa quem tem mais, mas sim quem sabe e quer ser mais, o que luta por ser melhor, por tentar ir além e tornar a sua vida mais do que um percurso vazio num cimento sequíssimo, que não deixa pegadas. Não me interessa quanto se tem no banco, se não se sabe dar, nem reconhecer como se ganhou (O que nem sempre depende de si mesmo, mas de outros, que passam despercebidos).

Daí o meu silêncio desistente quando, passados alguns argumentos, ainda ouço que o "dinheiro faz amigos", e que, quem não o tem, nada é. Quando, depois de me oferecerem algo que queria há muito, ouço "um pedaço de plástico tão caro" (mas, para mim, de valor incalculável). Quando gozam com alguém que reclama de 2,5€ que se pagou num café (mau), como se a pessoa fosse uma desgraçada pobretanas.

Tudo porque, quem o diz, não entende que as coisas, as acções, a vida, têm valor, que não é directamente relacionada com o custo delas, nem é igual para todos. Eu não valorizo nem um pouco algumas "extravagâncias" de outras pessoas, nem os seus carros, nem os seus telemóveis. Gosto das minhas coisas, e, quem me conhece, sabe que tão depressa me entusiasmo com algo mais caro, quanto com um quadro natural, artesanal, simples, dado com o carinho daqueles que querem, com ele, transmitir todo o amor do mundo.  Ou com a "mera" presença de alguém que vem de longe só para nos abraçar. Assim, sem preço. Mas com imenso valor.

Eu reclamaria por 2,5 € num mau café, mas não por 150 euros (ou quantos fosse, se pudesse) dados à companhia aérea que me permitiu fazer uma surpresa à minha avó nos 80 anos dela. Inesquecível. Porque tudo tem o seu valor, e há coisas que valem, e muito mais, o seu preço, independentemente de qual seja, e outras que são completamente escusadas, mesmo que custem um euro. E o dinheiro não nos vale de nada se não soubermos distingui-las. 

Por isso, se me virem no meio de uma conversa, no final de uma refeição, ou noutro momento, alienada do mundo, é porque, muito provavelmente, o valor da pessoa que há em mim se cansou de mostrar que não se interessa pelo preço que está na etiqueta com que algumas, outras, insistem em marcar a sua vida. Temos pena (ou não), mas sou assim. 
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...