Pierre Hermé ou
Ladurée, Pierre Hermé ou Ladurée ? Fossem todos os dilemas da
vida resolvidos com a facilidade e o prazer da solução para uma das questões
principais que coloco às pessoas que aqui me vêm visitar. Não que a escolha
tenha que passar, obrigatoriamente, pela preferência de um em detrimento do
outro mas, se quiserem provar os reis daquelas que são umas iguarias francesas
mais apreciadas, conceituadas e coloridas, os macarons, não deixem de visitar
os mestres na arte. França comemora o Dia do Macaron a 20 de Março, e nós fomos provar mais uns sabores, não fosse o nosso julgamento, até agora, não ser o mais correcto.
Por todas as boulangeries e muitas chocolaterias em Paris,
encontramos vitrines, maiores ou menores, cheias de doces coloridos e com ar
elegante, que primam não só pela concepção mas muitos, principalmente, pela
apresentação. Antes de provarmos algum, já os nossos olhos estão
conquistados no requinte das formas, das frutas lustradas e dos pequenos acabamentos
de chocolate. Eu gosto, particularmente das cores, dos verdadeiros arco-íris,
em combinações de sabores improváveis, que me desafiam os sentidos. E, aí,
entram os macarons.
O primeiro que comi, há tantos anos que já nem me lembro
quando, foi numa daquelas padarias de estação de metro e RER. Uma coisa tipo bolachinha,
de framboesa, pareceu-me uma aposta segura. Contudo, a falta de algo que o
tornasse especial, associado a um recheio de fraca qualidade e a um merengue
com gosto a corante demasiado artificial, levou-me a acreditar que, de facto,
ali estava um doce que não me diria nada. Provei ainda um em Portugal, numa
pastelaria conceituada, e também não me aliciaram. A adoração ao macarons iria,
para mim, permanecer um mistério, daqueles que mais ninguém pode resolver por
nós.
Um dia, no ano passado, andava eu à procura de um vestido
para o casamento civil nas Galeries Lafayette (tendo encontrado um da Karen
Millen, marca que está no meu coração ao lado da Ted Baker, lindo), quando passei pelo
quiosque, num dos andares (não me perguntei qual), da Pierre Hermé. O ar
cuidado, as combinações de cores e texturas em cada macaron, atraíram-me. Não
eram nada como os outros que já tinha visto, coloridos, mas de um só tom,
lisos. Aqueles tinham um verdadeiro je ne sais quoi, que convidavam à prova. Apesar
de custarem o dobro dos macarons pelos quais passava normalmente, pensei que, se fossem
tão bons quanto o seu aspecto, haviam de valer muito mais do que qualquer outro,
pelo que um chegaria perfeitamente para saciar a minha gulodice.
Tal e qual. Assim que dei a primeira trinca, senti a
delicadeza de um merengue bem batido, leve, crocante e ao mesmo tempo saboroso; a
mestria de um recheio pensado para agradar, para despertar outros sentidos,
dando-lhe um toque de qualidade artesanal; a combinação de sabores, minhas
senhoras e meus senhores, as combinações de sabores... inigualáveis. Foi amor.
Eu, que nunca tinha apreciado por aí além os macarons, estava convertida aos
do Pierre Hermé.
Cada docinho do Pierre Hermé, como outras iguarias dele, são criadas para despertar várias sensações em quem os prova. Desde os pequenos pormenores desde chocolate negro, do melhor, polvilhado, a pequenos pedaços crocantes de açúcar ou sal, consoante o sabor, passando por
degradés de cores e misturas de tons, aos recheios que têm tanto de sabor quando de textura própria do ingrediente ao qual foram buscar a essência (o de figos e
foie gras tem a densidade do segundo e sementes, esmigalhadas, crocantes, do primeiro; o de
cream cheese a cremosidade do queijo; o de chocolate tem gotas de uma intensidade insuperável e o de limão tem a acidez cítrica natural que se encontra raramente num doce), tudo foi pensado para ter tanto de original quanto de excelente. Ficaram tentados?
Por outro lado, não podendo passar impávida e serena ao culto da
Ladurée (como se fosse necessária razão para provar algo diferente e doce), fui, passados poucos meses, até àquele que é, para mim, o espaço mais parisiense de Paris, desejosa
de provar os macarons deles (e confesso, compará-los com os do meu primeiro
amor). Nos Champs Elysées, avenida tão procurada de Paris, a fachada da Ladurée
é qualquer coisa de sumptuoso. A lembrar o frenesim da cidade das luzes no
final do século XIX, os motivos verdes e dourados transportam-nos para a era de
um Paris de filme de época, sumptuoso, glamouroso, em todo o seu esplendor. Dentro, em
dois espaços distintos, podemos visitar o salão de chá ou ir directamente à
vitrine dos doces, comprar umas delícias para levar para casa. É o que fazemos,
embora os saquinhos transparentes cheguem sempre a casa vazios.
Os macarons da Ladurée, embora menos divertidos em termos de
cores, dado que, normalmente, cada um só tem um tom e uma aparência monótona,
são, em termos de sabor, muito bons. A qualidade com a qual são confeccionados
e a exigência na escolha dos ingredientes são inegáveis e merecedoras da
adoração que lhes têm. Quando se vai à Ladurée, não se trazem apenas uns
docinhos coloridos numas caixas bonitas (uma delas assinada pela Nina Ricci), mas também um Paris dos sonhos, um
glamour tão francês. E essa é uma experiência que vale muito.
Entretanto, já provei outros macarons de outras
confeitarias, tendo conhecido, inclusivamente, a fábrica que distribui os doces
para a maioria das padarias comuns. As que não são especializadas, as que não
têm confecção própria. Também são bons, admito, para quem quiser levar uma
caixinha, não muito cara, para oferecer em casa. Os 18 ou 20 euros por sete ou
oito macarons nas duas grandes lojas que vos falei não são assim tão acessíveis
à maior parte dos comuns dos mortais, como eu. Valem o que custam, atenção, e
valem mais do que os outros, mais normais, mas são, reconheço, muito caros.
Contudo, o que proponho, se me permitem, é que façam o
teste. Um dia, quando estiverem a passear pelos Champs Elyssées, provem um de
cada, pelo menos. A
Ladurée está a meio da avenida, é fácil de ver, e a
Pierre Hermé tem um balcão na D
rugstore mesmo no topo, ao chegar ao Arco do Triunfo. Quando estiverem no Marais podem visitar, igualmente, o espaço PH, acrescentando essa visita a outras,
das quais vos falei noutro post.
Acharão,
talvez, os cerca de dois euros por cada um demasiado caros por uma coisa tão
pequenina, mas, se forem como eu, acreditam que há experiências que são únicas,
que não se repetem. E há que aproveitar. Mais vale provarem dois macarons muito
bons, e escolherem o vosso favorito, se tiverem um, do que uma caixa daqueles
que não brilham.