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sexta-feira, 14 de março de 2014

Utilidades de cozinha

por Carol Vannier

Existem alguns equipamentos de cozinha que considero de grande ajuda, mas por um motivo ou outro não são tão populares aqui no Brasil. Como não estão em toda cozinha, viram artigo de luxo e quando dão as caras nas lojas, muitas vezes são vendidos a peso de ouro.

Muitos deles são simples bugigangas feitas na China, só que algumas chegam aqui bem mais caras do que nos sites chineses. Então antes de comprar é sempre bom dar uma olhada na internet pra ter uma ordem de grandeza. Se você encontrar nas lojas por um pouco só a mais, pode valer a pena por não ter que esperar os longos prazos de entrega. Mas às vezes a economia é tão grande que é melhor esperar com o bolso mais feliz ;)

Vou citar aqui alguns itens que considero pouco apreciados, mas se você está querendo alguma outra coisa que eu não mencionei, procure por ela em sites como o Ali Express ou o Deal Extreme e veja se tem sorte.

Balança digital

fonte: Extra
Fonte: Deal Extreme
Pra mim nenhuma outra forma de medir ingredientes faz mais sentido do que na balança. Talvez minha formação científica reforce minhas neuroses naturais, mas eu realmente acho que todo mundo devia ter uma balança na cozinha. Não é que seja impossível medir bem de outras maneiras, mas é bem mais complicado. Você precisa de recipientes de volume conhecido, e precisa saber a densidade das coisas que vai medir, sendo que essa densidade pode variar. Já deu pancadinhas no pote de farinha pra caber mais? Pois é. E experimente ver quantos gramas de água cabem nas xícaras medidoras padrão. Elas dizem que têm 240ml mas nunca achei uma que coubesse 240g de água, nem duas que tivessem o mesmo tamanho. Claro, não estou dizendo que o seu bolo vai virar um alien só porque você usou uma xícara meio pequena pra medir, mas que mal tem ser um pouco mais preciso? Você ganha um controle melhor sobre suas experiências culinárias e ainda suja menos potes, porque pode botar uma única tigela em cima da balança e ir adicionando cada ingrediente e tarando a balança antes do próximo.


Antigamente era mais difícil encontrar por aqui balanças de cozinha que não fossem uma fortuna. Agora as opções mais baratas ficam em torno de R$50 com frete. Nos sites chineses dá pra conseguir por valores entre US$10 e US$20 dependendo do modelo, com frete incluso (normalmente o frete é incluído no preço então dá na mesma para qualquer lugar no mundo).


Termômetro de forno

fonte:  Deal Extreme
Eu acredito que existam fornos que dispensem o uso de um termômetro. Infelizmente é difícil topar com um desses no Brasil. Alguns (mais honestos eu diria) têm opções simplesmente de muito alto, alto, médio, baixo e muito baixo. Outros dão faixas de temperaturas que na maioria das vezes são mentirosas. Por essas e por outras um termômetro de forno pode ser muito útil. Infelizmente ainda me deparo com outro problema: a não-uniformidade da temperatura. Eu sempre tenho que girar os tabuleiros no forno pra tentar garantir um cozimento uniforme. Esse tipo de problema é resolvido por uma ventilação de forno, mas aqui no Brasil é preciso dar pelo menos um dos olhos da cara por um forno com ventilação.



Outros termômetros


fonte: AliExpress
fonte: AliExpress
Ok, aqui já é um pouco de exagero, mas o que vocês esperavam de alguém que escreve uma coluna de culinária? Pois é...
Eu já tive um termômetro digital com uma sonda que você podia mergulhar numa panela ou espetar numa carne, e adorava. Infelizmente ele quebrou e agora estou pensando em comprar um que fica preso na panela e é analógico (eu me acho incrivelmente azarada com equipamentos digitais). Mas para espetar carnes, o mais comum é digital mesmo, só que acho menos útil. Se bem que depois de tanto trabalho assando um pernil ou peru, é bem reconfortante ter certeza que o interior já atingiu a temperatura adequada, e que você não precisa deixar ele lá esturricando só por medo de talvez comer carne crua.

E como todo post das sextas-feiras termina com receitinhas, e mantendo a linha de utilidades de cozinha, compartilho duas receitas de produtos de limpeza feitos em casa (os dois testados e aprovados!) para você economizar uns trocados pra comprar bugigangas super úteis ;)


DESENGORDURANTE DE COZINHA

2L de água
500ml de detergente líquido de lavar louça
100ml de amônia*

Misture tudo num balde e guarde em garrafas PET. Para usar, reaproveite um desses vaporizadores dos produtos de limpeza para esguichar o desengordurante.


SABÃO PARA MÁQUINA DE LAVAR LOUÇA

(as partes são em peso, não em volume, então use sua balança!)
2 partes de borax* (borato de sódio)
2 partes de bicarbonato de sódio*
1 parte de ácido cítrico em pó*
1 parte de sal

Misture tudo e guarde em recipientes de boca larga, tipo pote de sorvete, porque ele absorve umidade e fica empedrado com o tempo. Então aquelas garrafinhas do sabão comprado pronto não são a melhor opção. 

*A amônia é vendida em frasquinhos na farmácia por menos de R$2, mas não fica exposta, tem que pedir no balcão. Já os ingredientes pro sabão da máquina foram comprados numa loja especializada em produtos químicos a varejo no centro do Rio, a B. Herzog. Pelas nossas contas custa entre 40% e 50% do preço do sabão no supermercado.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Pergunta da Salinha # 2

És pessoa de sabonete ou gel de duche?

Sou menina de gel de duche, assumidíssima, e, apesar das tentativas, não consigo voltar ao sabonete. Actualmente, estou a usar uns da Bourjois, que vos mostrei num post sobre saldos, depois de ter experimentado outros, como o da Caudalie, Yves Rocher, Rituals, The Body Shop ou o da Dove que ganha, sem dúvida alguma, o lugar de favorito em termos de hidratação. O sabonete cujo cheiro mais gosto, e é o que a outra pessoa cá de casa usa (ele sim, menino para preferir, sem pestanejar, uma barra a um creme), é o Fleur de Figuier da Roger Gallet (suposto favorito, também, da Penélope Cruz, a quem interessar a informação).  


Se este post vos interessa, vejam a primeira pergunta, da semana passada, na Salinha. Partilhem connosco as vossas respostas, que o diálogo é sempre extremamente interessante. Obrigada! :) 


quarta-feira, 12 de março de 2014

Bourjois | 123 Perfect CC Eye Cream

Tendo já partilhado algumas das minhas descobertas interessantes da Bourjois (aqui, aqui ou aqui), outras nem tanto, quando a apanhei a 50% de desconto, por altura dos saldos, acho que está mais do que na altura de partilhar convosco o que penso do CC Eye Cream, novidade de Janeiro. Convenhamos, ele não vai ficar melhor, nem pior, do que é, também já não tem por onde me surpreender, por isso, vamos a isso.

Começo pela embalagem que, parecendo que não, pode afectar imenso a (in)satisfação sentida relativamente a um produto. Em formato de caneta, com uma ponta diagonal (provavelmente para aplicação directa, que eu não faço), o produto sai por uma pequena ranhura (mas mesmo assim maior do que devia). Se forem pessoas calmas, com tempo, pacientes, rodarão comedidamente a outra ponta para que o dito corrector saia, descansadamente, do seu espacinho, e dê ares de sua graça. Ora, para todas as outras, como eu, que, especialmente de manhã, têm o botão no extra-rápido e aqui vai disto, é processo sujo e, o tão inglês, “messy”. Isto porque ou não sai nada, ou sai muito mais do que é preciso e, vai não vai, esse extra seca na ponta, bloqueia o que aí vem e, quando damos por ela, já saiu corrector para cobrir a cara inteira, fosse esse o propósito. Não é. Aplicar directamente o produto também não me pareceu o mais confortável; a ponta é dura, não se vê a quantidade que sobe e, nessa técnica desajeitada, lá ficamos com as olheiras extra cremosas e demasiado iluminadas. No mínimo. Eu, até agora, usei ou os dedos ou um pincel, tipo o deluxe crease brush da RT, e só assim consigo aplicar com alguma eficácia.

Posta a questão prática de lado, que, se um produto for bom, os ses menores até se esquecem (excepto o cheiro, que essa é, normalmente, a razão que me faz pôr os produtos de lado, mas não interessa aqui para nada, porque o CC Eye Cream até cheira bem, floral, para um corrector), passemos à textura e eficiência do produto em si. Confesso que a minha primeira reacção ao produto foi “olha que parecido com o Touche Éclat”! Isto porque está mais para o líquido e fluido do que o cremoso mais denso, e mais para iluminador (como ele se pretende, também), do que corrector per se. Isto é, não tapa, completamente, mas “clareia” por assim dizer, a zona das olheiras, que parece imediatamente mais fresca e revitalizada.


sim, sim, sei que as fotos não são as melhores, mas a máquina estava sem bateria e aqui tem-se pouco tempo para esperar...

A Bourjois garante, igualmente, 24 horas de hidratação e, apesar de, no meu caso, manter a promessa por umas boas 10 horas (nunca o deixei as 24, para garantir), confesso que não sei como se portará em alguém com pele mais seca. Hidrata, é verdade, mas é um iluminador/corrector , não um creme com esse fim, nem me parece ter todo esse poder, se é que me entendem. Ou seja, como agente camuflador já vi melhores, como iluminador, apenas, também não é favorito (O Touche Eclat é, neste género de produto, e pese embora ser muito mais caro, mais eficiente, não vale a pena negar) e, como hidratante, não bate um creme. Só por aqui pensamos imediatamente que será produto para uma ida ali ao lado rapidamente, naqueles dias em que não precisamos de maquilhagem perfeita e segura, e nada mais que isso.

Agora, o grande senão dele, na minha pele: sozinho acumula horrores! Se tiverem a sorte de não ter qualquer linha abaixo ou ao lado do olho, palmas para vocês porque, provavelmente, não terão qualquer problema com este CC Eye Cream. Para todas as outras jovens que, como eu, se riem frequentemente e têm, por isso, marcas de expressão bem vincadas, nessa região, esqueçam. Assim que o colocam, minutos depois, já têm linhas que terão de ir esbatendo ao longo do dia. A única forma de se aguentar mais, deixando-vos seguras, sem marcas chatas, algumas horinhas, é passando um pó por cima. Não fica perfeito, perfeito, mas é bom para aqueles dias em que só se usa corrector (o que eu faço, muitas vezes, no Verão). Sozinho, é um desastre (pelo menos na minha pele, mista, e, no meu caso, com linhas). Tenho de andar constantemente a limpar e a esbater a acumulação de produto, o que não é de todo agradável. Isto até um de nós se cansar;  ou eu desisto e vai, fica assim, ou ele fica tão esbatido que fica quase imperceptível ao nível da cor, embora mantenha a sua acção iluminadora. Devia vir num kit, com um pó, sem dúvida.

Este menino, que custa (pelo menos aqui) 9,95 €, está disponível em três cores; a Ivoire 21, Beige Clair 22 (a que tenho) e a Beige Doré 23. No Brasil encontrarão a Bourjois a excelentes preços na Dufry. Servirá para quem não tiver olheiras muito marcadas, nem linhas profundas, e pele com tendência a seca. Especialmente para dias em que estão numa de no make up. Quem quiser comprá-lo, não se esqueça de juntar à lista um pó, até pode ser o Healthy Mix, da marca, para assentar o produto e ter um companheiro quietinho durante mais tempo. 


terça-feira, 11 de março de 2014

Ted Baker | Os felizes companheiros (fosse tal possível)

Costumo dizer que, se alguma vez ganhasse o Euromilhões, a primeira loja na qual entraria seria, sem dúvida alguma, a Ted Baker. Recebi um saco de maquilhagem de prenda de aniversário, um dos eternos de borracha com um laço, e adoro-o. Na loja, na qual entrei num domingo, aquando de um passeio pelo Marais, conseguir-me-ia vestir dos pés à cabeça, traria uns acessórios e aproveitava para umas pecinhas para a praia. Apesar da escolha ser difícil, já que teria vontade de experimentar (e trazer, vejam o problema!) tudo, eis algumas coisas que, com certeza, viriam comigo... 

... para um evento de Verão:

CARLII - 240 €                                                       HALINA - 225 €

... para um passeio simples:

TEZZ - 165 €                                                        PRISCIL - 200 €

... para uma saída à noite:

TEMBERL - 175 €                                                EVELIN - 215 €

... para a praia:

LEALLAA - 75 €                                                        TEBAG - 75 €

... para o caso de estar um friozinho:
PATRINI - 125 € (a parte de trás é amor)                       GAETON - 200 €

... no caso de estar ainda mais frescote:

MADIGAN - 375 €                      MEELIYE - 300 € (mais uma vez, parte de trás linda)    SANCIA - 315 €

... para os pézinhos:


... e para acompanhar:



Bem, no final, não era nada de assim tão extravagante ou excêntrico. Sou assim de pedinchices pequenas, vá. 


segunda-feira, 10 de março de 2014

Das pessoas | A compaixão vazia e a solidariedade fotogénica

Toda a comoção e a indignação que tem movido o Facebook em torno da sessão fotográfica com a Rita Pereira levou-me a, passados meses de clausura e introspeção sobre evoluções e passos que somos obrigados a dar na vida, escrever sobre o que trago em mim de um espaço que também se tornou meu, onde deixei parte de quem era e trouxe muito do que sou hoje, Cabo Verde. Explico-vos porquê.

Dizem que África nos molda, nos tolda, e nos deixa órfãos quando nos vamos embora. Eu nunca acreditei, nem subscrevo, assumpções tão generalistas que partem imediatamente do princípio que um continente, tão vasto em culturas, mentalidades, povos, formas de viver, quantos os quilómetros que separam países e meridianos que os ultrapassam, é todo igual. Não é. Dizê-lo, de boca cheia, parece-me sempre tão acertado e sério quanto dizerem que nós, portugueses, e os polacos são iguais, e que a Europa de uns é igual à dos outros. Disparatado.

E, contudo, Cabo Verde, do qual posso falar, deixou-me assim, moldada, toldada, órfã de uma terra que não era minha, que me maltratou no primeiro ano e que passei a adorar. Tanto quanto aqueles amores estranhos, loucos, que se entranham e dos quais só nos apercebemos quando se foram embora. Ou quando partimos, que foi o que aconteceu, no meu caso. A vida é de evolução, e a minha estava num afastamento que, fossem outras as condições, nunca teria acontecido. Mas não são. Se há semana que passa em que não penso nas gentes, no Sol, na calma e simplicidade de uma vida tão própria? Não há. Se sinto aquele aperto para voltar, já amanhã, e abraçar o que de mim deixei lá, aqueles cujas vidas tocaram na minha e me fizeram crescer, viver, saborear risos e partilhar frustrações, gritar com o mundo mais petulante e chorar ao lado dos que se esforçam por ter algo, com um ânimo de alguém que só de si se vale? Sinto. Muito.

Há qualquer coisa naquela terra, árida na maior parte do tempo, naquelas pessoas, cuja morabeza não é a dos hotéis, nem a que romanticamente idealizamos, que entra em nós e nos faz sentir aliens perdidos no meio de comunidades, outras, materialistas, individualistas, com egos que se medem pelas contas bancárias. O regresso foi um choque. Confesso. Deixar amigos para trás, que ganharam lugar cativo no meu coração, com preocupações dignas de seres humanos, completos, que lutam, que sabem distinguir o valor das coisas, e das pessoas, e sentar-me à mesa de quem mede forças pelo preço do que compra, do que tem, é algo que tem tanto de inexplicável, quanto de penoso. Aqui estou eu, mais de um ano depois, a assumi-lo. O problema não eram os outros, esses estavam iguais, era eu, diferente, não apenas num rosto mais cansado, mais maduro, com a pele de quem viveu anos debaixo de um Sol  mais claro, mais baixo, mais quente, mas também nuns olhos que viram o que é viver sem nada, ali ao lado, e um coração que não queria suportar o regresso, que anseia por voltar, que se sente perdido no meio de outros, pequeninos, que se julgam muito maiores do que são. E nem percebem como estão errados. Não estou melhor, nem pior, estou diferente.

Por isso, e chegando às malfadadas fotos que circulam por aí, custa-me o extremo mau gosto da campanha (da qual não entendo a razão e, quando assim é, significa que a estratégia de comunicação não foi tão bem desenhada quando podia), mas ainda mais os comentários de comiseração bacoca, compaixão de uma superioridade ignorante, que tratam as pessoas como se de "coitadinhos" se tratassem. E daqui parte um dos primeiros erros e sentimentos que não se deveriam nutrir pelos outros. A comiseração misturada com uma pena que, no desconhecimento, nos faz sentir defensores de causas, na net, por escrito, mascarados por identidades virtuais, fachadas essas com as quais podemos ser este mundo, e o outro (que a ser, sê-se em grande). Revoltamo-nos, julgamos a modelo que lá está no meio como se o diabo fosse, porque “coitadinhos” dos que estavam à volta, perante tanta opulência, tanta riqueza, no meio de quem nada tem.

Não direi, com isto, que não vi muita "miséria" em Cabo Verde. Vi. Crianças com roupa rota, a jogar com uma bola feita de trapos, descalças (se algum ser que se julgasse superior me visse, nos anos oitenta, na aldeia da minha avó, a brincar com a minha prima, descalças, sujas, na terra, também nos fotografaria). Mais meninos de rua, sozinhos, do que alguma vez deveria ser permitido (porque até um já é demasiado). Casas por construir, por terminar. Comida que escasseia em muitos pratos e escolas demasiado longe para muitos alunos, que têm de andar quilómetros a pé, faça sol ou chuva (e em Cabo Verde isto significa terra alagada e muita lama, escorregadia naqueles montes do interior de Santiago). O cansaço na vendedora de rua, que lá está o dia todo (todo! Não as quarenta horas semanais, nem algumas horas extra, tão penosas e queixosas para alguns, que acham que são desgraçadinhos a trabalhar, mesmo por conta própria, para terem “coisas” topo de gama) para conseguir dar aos filhos, que a ajudam quando podem, um futuro melhor. Jovens que batalham com a força de heróis para conseguirem ir longe, simplesmente para serem quem querem ser, quem sonharam ser, já que não podem contar com mais alguém a não ser com eles próprios. E noutros países haverá, com certeza, ainda mais. Mas “coitadinhos”? “Coitadinhos” não são. Até é ofensivo.

A distribuição de riquezas mundial é, de facto, assustadora e revoltante. Não temos uma real noção de quanto até abrirmos as mentes e nos confrontarmos, in loco, com ela, olharmo-la nos olhos e identificarmos a sua verdadeira alma, diabólica. Um dia, um aluno meu disse-me que tinha sido Deus a fazer com que algumas pessoas nascessem num país com tantas faltas, onde a chuva não cai, a comida não abunda, no mar nem um pocinho de petróleo se encontra. Pequenino, já que o país também não é grande. Sorri, tentei explicar-lhe que não. Mas como perceber, eu, que vivi sempre com electricidade e o conforto de um banho quente matinal, a visão de quem se habituou a conhecer outro mundo, o nosso, nas palavras de emigrantes, nas fotos ou na televisão, quando havia? Fiquei com vontade de pegar nas fortunas da ínfima percentagem dos grupos e pessoas que seguram as cordas do mundo, e espalhá-las por ali. Mas não tenho como. Infelizmente. Só posso fazer o que está ao meu alcance. 

Não trouxe, contudo, comigo, a ideia de um povo e de uma comunidade merecedores de uma pena vazia. Isenta de acções. Muitas vezes, resultado apenas de uma noção de consideração mínima da regra do politicamente correcto, totalmente desprovida de fundo de valor. Revolta-me a hipocrisia, muitas vezes incorporada ao ponto de nos acharmos repletos de uma compaixão que nos faz dignos de um pedaço do céu, ao ponto de me gerar náuseas. Sinto que é o Cabo Verde que se entranhou em mim que me faz ficar fisicamente incomodada com o coração oco alheio, aquele que faz mal ao próximo e defende, porque está longe, o outro, só porque tem um tom de pele que, mediaticamente, fica bem associado com a solidariedade e caridade.

O mundo evoluirá quando nos olharmos como iguais, e não uns de um pedestal sobre os outros, os “coitados”. Há gente que precisa, muito, da nossa partilha, onde quer que esteja, mesmo que seja aqui ao lado de casa. Cada um de nós sabe como essa parceria pela humanidade pode ser feita; cada um dá o que tem e sabe. E há gente muito feliz e muito lutadora mesmo sem o último telemóvel ou carro topo de gama (ou mesmo sem nenhum, acreditem). Ou sem vestir as marcas x ou y da moda, porque fica mal não as usar, já que todos os outros têm. Satisfeitos com o que têm, com a vida que levam, simples e humilde, mas nas quais há espaço para a família, que apoiam e para a qual estão presentes, naturalmente, assim, de braços honestamente abertos, porque ela vem sempre em primeiro lugar. E não estou a falar num núcleo pequeno, mas de uma colaboração entre primos, tios, sobrinhos, que, em alguns casos, chega às dezenas. Há de tudo, em todo o lado, de todas as cores, de todos os feitios.

Ninguém nos fez donos da sapiência superior, nem dignos de julgarmos os outros por terem vidas, hábitos e mentalidades diferentes dos nossos. Muito menos de manter estereótipos de uma "miséria" que é foto e videogénica, ao mesmo tempo que nada fazemos para estender a mão ao outro. Numa das letras de uma das minhas músicas cabo-verdianas favoritas, a Mnine de Rua, dos Cordas do Sol, encontramos, a determinada altura, esta frase: “Es e mnine d'rua ma es meste nos tude/ Ai munde, Ai Munde/ Un kalker d'nos pudia ser mnine d'rua” (É menino de rua, mas precisa de todos nós /Ai mundo, ai mundo / Qualquer um de nós podia ser menino de rua). E, para mim, é daqui que devia partir a ajuda, a parceria global, o voluntariado e a mão estendida, ao lado, não por cima, não com a compaixão que “fica tão bem”. Porque, lembrem-se “qualquer um de nós podia ser menino de rua”. E se fôssemos, queríamos ser tratados como “coitadinhos”, especialmente por quem pouco faz por nos conhecer? 
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