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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Domingo, é no Marais!

Depois das dicas para organizarem a viagem para Paris, aposto que ficaram com vontade de aqui vir dar um saltinho e já têm as passagens reservadas. Sim, sim, eu sei que a cidade é aliciante ao máximo, não apenas para os casais apaixonados, como Hollywood insiste em mostrar, mas também para qualquer espírito viajante, que gosta do pequeno e do grande, “à francesa”, expressão que entenderão passeando por estas bandas, como dizia uma amiga minha. Se apanharem um domingo que não seja o primeiro do mês, dos museus gratuitos, ou simplesmente se não quiserem estar enfiados num espaço apenas durante todo o dia, vão por mim: Domingo, é no Marais!


O Marais, durante vários séculos, foi o bairro favorito da aristocracia, que nele montou as suas mansões. Os “Hôtels” que virem por aqui não são hotéis de hoje em dia, para pernoitar, mas sim casas sumptuosas onde habitavam famílias endinheiradas e que são, actualmente, museus e espaços de visita. Só pela imponência das casinhas dos nobres de antigamente, já valeria dar um pequeno passeio pela região. Mas o Marais é muito mais!

Após a mudança da nobreza para a região de Faubourg-Saint Germain, do outro lado do rio, e pertinho da famosíssima Torre Eiffel e do seu idílico Champs de Mars (perto do qual encontramos, por exemplo, o Museu Rodin, casa de  Abraham Peyrenc de Moras, pessoa abastada ligada ao mercado financeiro no final do século XVIII, início do XIX), o Marais foi descoberto pela comunidade judaica que, até à mancha escuríssima que foi para a história da Humanidade, dita racional, o regime nazi (e que, infelizmente, não reina sozinha no mundo do horrível e do que causa vergonha ao mais desligado ser humano), aí prosperou e cresceu. No final da guerra, tínhamos um bairro destituído da vida que outrora albergava, agora remetido a região operária.

Sendo uma das regiões mais fustigadas pelos ataques, temos, nos anos 50, um Marais ferido e a necessitar de reparações profundas, que fez com que DeGaulle o considerasse, já nos anos 60, um sector a ser salvaguardado e recuperado, dada a sua importância cultural. Seguem-se os restauros. As antigas mansões albergam hoje museus e um dos seus espaços, deu lugar à região onde vemos agora um dos monumentos de visita obrigatória, o Centro de Arte Moderna Georges Pompidou.   

Pondo a parte histórica de lado, porque é importante saber como chegámos ao bairro fantástico que temos hoje, mas não é apenas isso que lhe dá o brilho, encontramos, actualmente, um Marais onde afluem e se encontram as comunidades judaica, gay, chinesa, com o toque artístico dado pelas várias galerias pelas quais por lá passamos. As lojas mais famosas, hypes, algumas exclusivas, têm morada pelas ruas onde outrora os nobres se passeavam, mostrando que se tornaram espaços de moda, criadoras de tendências.


Há, por tudo isto, qualquer coisa de fabuloso nos passeios de domingo no Marais. Em primeiro lugar, porque, dada a forte influência judaica, parece ser a única região de Paris que acorda e se move nesse dia. Quem não conhece Paris, estranhará, mas há uma inércia dominical, de tradição conservadora católica que assusta. Quase tudo fecha, e a cidade entra num estado de entorpecimento, só quebrado com a vida fervente de algumas regiões, sendo o Marais, para mim, um destino de excelência.


Para um dia bem passado, e uma caminhada diária que aqui em casa adoramos, aconselho o pequeno almoço no hotel, ou numa boulangerie perto do local onde ficarem, seguido de um passeio matinal pelo Jardin des Tuileries. Entrar no Jardin pelos Champs Elysées, passando o obelisco, e avistar ao longe a imponência do Louvre, aquele que foi, outrora, a residência real e imperial, é, de facto, merecedor de lembrança. Pelo caminho, as fontes e as estátuas mostram-nos a elegância tão distintamente francesa, e podemos ainda avistar, do lado direito, a fachada do Musée d’Orsay, antiga estação de comboios, que nos faz viajar para tempos idos, quando entrar na cidade onde até os relógios são dignos da realeza exuberante devia ser avassalador.


Segue-se então a entrada da Rue du Rivoli, do lado esquerdo do Louvre, que nos transportará ao Marais. Gosto particularmente de deixar para trás o espaço turístico para ver um Paris diferente, que mostra a sua multiculturalidade residente, não a de visita, com o que tem de bom e de mau. Caímos na realidade de uma capital com os seus sem-abrigos que se reúnem, em convívio, a jogar cartas, por cima das grelhas de saída de ar quente do metro, única forma de aguentarem o rigor do inverno francês. Uma realidade que nos acorda do estado inebriado pelo cenário idílico e sumptuoso que tem o Louvre. Ao domingo, as lojas estão fechadas, excepto em alturas específicas do ano, pelo que a nossa atenção poderá estar totalmente focada nas gentes e nos espaços de uma cidade secular. Sem outras distrações, apreciamos a imponência do Hôtel de Ville (Câmara Municipal) e outros espaços históricos pelos quais passamos.


Entramos no Marais, normalmente, pela rua em frente à saída da estação de metro Saint-Paul (fica a dica para quem lá quiser ir ter directamente), e passamos pela maravilhosa Eclair de Génie (delícias caras, mas dignas, pelo menos, de experiência). Perdemo-nos pelas ruas e praças, descobrindo as famosas casas de uma aristocracia esquecida, observando as montras aliciantes e bem cuidadas, até chegarmos à Rue des Rosiers, onde paramos para almoçar algo diferente. Seja um falaffel num dos restaurantes que se afirmam os melhores de todos, sempre nas janelas viradas para a rua, nos quais pedimos o que queremos para comer sentados num degrau de mármore ou num banco do jardim da Place des Vosges, ou uma sandes de Pastrami, na famosa (e fantástica, digo) loja de delicatessen Yiddish Sacha Finkelstein, terminamos sempre com um Sernik, simples ou de sabores, no espaço de fachada amarela. Adoro os almoços “maraisianos”.

De barriga cheia e alma contente, as energias estão recarregadas para visitar uns espaços de arte e história do bairro. O Musée Carnavalet, aberto ao público de terça ao domingo, com entrada gratuita na exposição permanente, é um espaço fantástico para aprendermos mais sobre a cidade da luz, através de pinturas, maquetes, objectos contadores de uma realidade passada, em salões e quartos outrora refúgios de alguém. Famoso, normalmente. Podemos, ainda, aproveitar para visitar a casa de Victor Hugo, na Place des Vosges, intacta e com os móveis ainda no lugar, inspiradores de histórias e estórias de uma vida eterna. A entrada para as colecções permanentes é igualmente gratuita. 

Quando o sol se começa a pôr, nada melhor do que terminar o dia com a travessia do Sena por uma das pontes que separam o Marais da Ilha de Saint Louis, romântico, certo, mas, acima de tudo, regenerante e enternecedor, para encontrarmos uma gelataria de tradição, onde provamos dos melhores gelados artesanais que já comi, a Berthilon. As bolas são mais baratas do que a cadeia multinacional da Haagen Daz, menores também, mas confesso que saboreamos a mestria de uma casa de excelência. E isso faz toda a diferença.


A deliciar-nos pela rua, independentemente da temperatura, chegamos à sumptuosa Notre Dame, cujos sinos à hora certa nos lembram estórias de amantes e ciganas, de paixão e humildade, luta e sacrifício. Paramos à frente da catedral, musa de artistas ao longo dos tempos, e, naquele estado de contemplação terminamos o dia e regressamos a casa. Horas em cheio, mas com uma satisfação por, nelas, termos feito parte e conhecido mais um pouquinho daquilo que é a vida de domingo de uma das cidades mais grandiosas do Mundo.





Fontes:


sábado, 22 de fevereiro de 2014

Dicas que dão jeito # 8

Ao fazer a mala para dois dias passados em Amesterdão, lembrei-me que poderia ser interessante mostrar-vos, como Dicas, a pequena bolsinha que levei com maquilhagem. Não tanto como produtos a levar em viagem, mas sim como os básicos que eu acho que servirão para a maioria das mulheres, pelo menos pensando no universo feminino que me rodeia. Para quem me pergunta frequentemente quais os essenciais, aqui vai uma opção.

Antes de mais, sinto-me na obrigação de sublinhar que a maquilhagem, como qualquer outro produto que acabam por reflectir quem somos e o que gostamos, em nós, é extremamente subjectiva. São escolhas que fazemos não apenas tendo em conta escolhas estéticas, mas também de conforto. Por exemplo, a minha mãe e uma grande amiga minha não saem de casa sem lápis preto, no mínimo, por mais que outros produtos, de outras cores, lhes salientassem o tamanho e cor dos olhos. É uma questão de auto-estima e segurança.


Este conjunto, por isso, pode ser perfeitamente de básicos, essenciais, dos mais fáceis de aplicar, para quem quer ter maquilhagem para o dia e para a noite. De salientar que servirá melhor a quem gosta de olhos e lábios simples, sem esfumados, sem pincéis. Posto isto e sem mais demoras, eis o que eu levei e pode servir de guia para comprar o “kit de primeiros passos na maquilhagem”, para estar sempre bem, sem esforço.

Face:
Muitas pessoas não gostam de base porque acham que vai “entupir” a pele ou parecer reboco, ou qualquer outra opinião formada de experiências que correram mal. Na realidade, como já escrevi por aqui, a base deve ser, provavelmente, o produto mais pessoal, que devemos experimentar, várias vezes, de vários tons e feitios, antes de optar por uma apenas. É algo que não devemos delegar a outra pessoa, nem comprar um tamanho grande antes de experimentar algumas amostras. Vale o que vale, mas é a minha dica.
Contudo, para algo simples e rápido, feito para ser inclusivamente aplicado com os dedos (apesar de já haver pinceis para o efeito, que eu não uso, confesso), temos sempre um BB cream. Este é o da Missha, coreano, que estou a testar agora, mas há vários no mercado, adequado a vários tipos de pele. Outro do qual gostei imenso foi o da Shiseido, e, no ano passado, usava um da Garnier, que, com a apliação de outros produtos, mais adequados para a minha pele, acabei por pôr de lado (sem desprezar a relação feliz que tivemos, juntos).

Ainda para a cara, podemos ter sempre um blush em creme que pode ser aplicado com os dedos. No início, pode parecer tarefa de gigante, mas, acreditem, com o tempo vai-se dominando a técnica e consegue-se, rapidamente, com os dedos, dar um tonzinho bonito às maçãs do rosto. Este, que estou a testar, é o Fawn dos novos blushes HD da Make up forever. Cada vez aprecio mais um blush de tom mais terra, neutro, que pode ser usado com qualquer maquilhagem. se tivesse se escolher um apenas para usar toda a vida, teria de optar por um nestes tons (qual, não sei. :) ) Brevemente falarei sobre este, especificamente, num post só para ele.

O iluminador pode parecer escolha estranha para um conjunto de básicos, mas não é. Pelo menos para mim. Desde a minha primeira caneta Touche Eclat da YSL que tem ganho o meu reconhecimento crescente como utensílio até nos dias em que não queremos pôr mais nada. Este é um da Becca, que estou a experimentar, que é mais brilhante que o famoso da YSL. Serve na perfeição para “acordar” o meu olhar, seja com uma pitadinha de produto no canto interno do olho, ou no osso superior da maçã do rosto. Algumas canetas iluminadoras sem purpurinas (dão luz à pele, mas não brilham), especialmente, têm ainda a vantagem de poder servir de corrector, já com um pincel, sendo um dois em um interessante.

Como eu tenho tendência para acne, acrescento ainda um corretor da Clinique, que trata as borbulhas/espinhas enquanto as trata. Caso surja uma, pelo caminho, leva com este produto e tem funcionado muito bem.

Olhos:
 Para os olhos, levei mais dois produtos que estão em testes e que encontram, na categoria, em todas as marcas e preços. Claro que uns melhores do que outros, mas isso cabe a cada uma averiguar a relação preço/qualidade que está disposta a seguir. Um rímel preto e um lápis preto (podem ver as minhas considerações sobre o meu ajuntamento no post que escrevi há pouco tempo), simples, ambos muito fáceis de aplicar e sem necessitar de grande savoir-faire. Durante o dia, apliquei o lápis preto na linha de água e o rímel nas pestanas só para abrir o olhar. Levei o conjunto da CK one para experimentar, aproveitando o facto de que o lápis tem uma ponta iluminadora, para o canto interno do olho.

À noite, para criar algo mais intenso, retoquei o lápis preto em baixo, desenhei uma linha, fina, junto à raíz das pestanas superiores, sem necessitar de ser muito precisa, e, com a sombra cinza taupe da Sisley, no tom Quartz 10, usando mesmo a esponja que vem na caixinha, puxei o tom do lápis para cima, carregando mais no canto externo do olho e deixado o interno apenas com uma linha preta discreta. Com a mesma esponja, fiz o mesmo em baixo e “rasguei” o olhar, arrastando o tom no canto externo ara fora. Muito simples e sem necessitar de grande técnica.

Lábios:
Com uns olhos e uma tez discretos achei que faria sentido dar uma corzinha aos lábios, especialmente à noite. Eu tenho este kit da Dior, o Holiday Couture collection, que tem um bálsamo, que usei durante o dia, um Dior Addict Extreme no tom 756 e um gloss, para a noite, mas há, mais uma vez, batons e produtos para os lábios de vários tons e preços. Eu apostaria sempre num mais nude, ou num simples bálsamo, para quem quiser, para o dia e num vermelho bonito (cuidado, há muitos com ar pouco elegante por aí), ou outra cor divertida, para a noite. Depende mesmo daquilo que mais gostarem, tendo em conta que são dicas para quem não tem quase nada de maquilhagem e só quer ter o básico.

Unhas:
O kit de lábios tem a vantagem de ter o verniz/esmalte 999, da Dior, em miniatura, perfeito para retoques. Admito que, até conhecer o duo 999, e depois de muito observar os vermelhos que por aí andam (e de muito conversar com a autora do Coisas e Cenas sobre o assunto), ainda não me tinha aventurado pelo tom. Há imensos do género, especialmente para as unhas, mas nenhum com a classe deste (mais uma vez, é uma opinião, subjectiva, que é válida para mim, mas pode não ser para vocês). Como a minha roupa era mais neutra, como é a minha roupa comum no inverno, optei por levar umas unhas vermelhas, que combinariam com os lábios.

Confesso que fiquei extremamente contente com a escolha e, se eu fosse pessoa para ter apenas uns básicos para usar de vez em quando, em reuniões e festas, seria esta a minha opção. Mas não sou, que eu cá prefiro, como já devem ter entendido, diversidade e experiências. Fica a dica, para quem gostar de olhos de lápis preto, com opção de algo discreto para dia e algo mais intenso, com um pop de cor elegante nos lábios, para ocasiões especiais. Com um vestidinho preto, acreditem, estarão elegantes e brilharão com uma maquilhagem simples, fácil de fazer em casa e que fica sempre bem (ou quase sempre, vá). Digna de passadeira vermelha, olhem vejam aqui: 







sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Bolo de pêra com chocolate

por Carol Vannier

A receita desse bolinho pra mim é um bom exemplo das receitas francesas. Primeiro a imbatível combinação de pêra e chocolate. Depois as medidas em peso em vez de volume. E por último, é uma delícia!

Ela veio de um livrinho que comprei num sebo, e só tem receitas de bolos para fazer naquela fôrma de bolo inglês, tanto doces como salgados. Esses bolos salgados são outra coisa engraçada que é comum na França e aqui não vejo muito. São uma opção legal de prato salgado e que viaja bem, para piqueniques ou festas participativas.

Como vocês podem ver abaixo, não usei a fôrma de bolo inglês. A cozinha da casa nova ainda não tem armários, então não tive coragem de lotar todas as nossas poucas superfícies com bugigangas que não têm seu lugar ainda. (Mentira, ela já tá lotada, mas podia estar pior...) Minha conclusão é que o bolo funciona dos dois jeitos. Claro que assa mais rápido como muffin, mas fica mais úmido como bolo inglês.

Ela é uma receita vapt vupt se você tiver acesso a pêra em calda já comprada pronta. Se não, não desespere, é molezinha de fazer, só adiciona mais algumas etapas ao bolo. Se estiver com muita preguiça, pule a parte do bolo e fique só com a pêra em calda e o chocolate derretido, não tem erro ;)



BOLO DE PÊRA COM CHOCOLATE


140g de manteiga
2 ovos grandes, ou 3 pequenos
40g de cacau em pó 
40g de chocolate amargo (sempre aumento um pouquinho, não resisto)
160g farinha de trigo
10g de fermento em pó
170g de açúcar de confeiteiro
400g de pêra em calda* (3 ou 4 pêras) escorridas e cortadas em cubos

  • Deixe a manteiga amolecer a temperatura ambiente e tire os ovos da geladeira 1 hora antes. Escorra bem as pêras em calda e corte-as em cubos. Você pode secá-las no forno baixo por 1 hora ou usar papel absorvente. 
  • Pique o chocolate amargo e derreta-o em banho maria, mexendo até obter um creme liso. 
  • Numa vasilha grande misture bem a manteiga com o açúcar, e depois incorpore os ovos, um de cada vez, batendo vigorosamente. Acrescente o chocolate derretido e misture bem. 
  • Numa outra vasilha, misture a farinha, o cacau e o fermento e depois as pêras. Adicione essa mistura à anterior e deixe o conjunto descansar na geladeira por 45 minutos.
  • Pré-aqueça o forno a 210ºC (alto). Coloque a mistura numa fôrma de bolo inglês untada e enfarinhada, leve ao forno e asse por 5 minutos, e então reduza a temperatura para 180ºC (médio), deixando por mais 45 minutos. Quando a parte de cima estiver bem corada, cubra com papel alumínio.
  • Quando um palito inserido sair limpo, retire do forno e deixe esfriar antes de desenformar.

*PÊRA EM CALDA

1 litro d'água
300g de açúcar
3 ou 4 pêras
opcional: baunilha ou cravo

  • Leve a água com o açúcar e a baunilha ou cravo para ferver. 
  • Enquanto a calda esquenta, descasque e tire o miolo das pêras. 
  • Quando a calda já estiver fervendo, coloque as pêras na panela e deixe cozinhar até que fiquem macias (aprox. 10 minutos, mas depende muito da pêra).
  • Se for usar no bolo, já pode escorrer e esperar esfriar. Se quiser guardar, conserve junto com a calda.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Das pessoas | As calhandeiras de língua bifurcada

Há pessoas que gostam de falar muito. Sobre tudo. Especialmente sobre a vida dos outros. Pessoas para quem o diz que disse do foi não foi ganha a importância de uma declaração de um tratado de paz, ou, melhor de início de hostilidades, como tanto gostam. Pessoas a quem importa o que aconteceu, o que não aconteceu e, principalmente, a história mirabolante daquilo que poderia ter acontecido. A veracidade é, para elas, tão relevante quanto um guarda-chuva num dia de sol.

Há pessoas que são ouvidos, outras boca, algumas não querem nem saber e há as universais, que são tudo e mais alguma coisa. Não contentes em focinhar meandros que não lhes pertencem, absorvem o que podem (ou o que querem, da maneira que mais lhes aprouver), criando o veneno adequado ao interlocutor escolhido, que escorre das suas línguas bifurcadas. Acham-se senhoras, as pessoas, estas, daquilo que afirmam com convicção, pensando, com isso, estar acima dos mundos que vão partilhando por aí. Mas quanto se enganam.

Há pessoas que ouvem, e partilham, e adulteram o que já interpretaram de forma adulterada. Juízes das palavras e acções que outros, os pobres crentes, tiveram o azar de partilhar (ou não, porque se não se encontra a informação, há sempre forma de a criar). Para quem o alento de uma maledicência enche uma alma vazia, desprovida de sentido. Espírito inútil que se alimenta de enredos alheios para esconder a solidão e frustração de uma vida pálida e acinzentada. Sem cor, nem brilho, nem felicidade.  

A Ellen Page disse, na sua declaração recente, brilhante, que "o mundo seria bem melhor se nos esforçássemos para ser menos horríveis com os outros". Podíamos, devíamos, começar por aí. Deixar de lado a tendência sedutora dos dedos apontados, dos julgamentos de vidas outras, do complexo de divindade descida à Terra, melhor do que os outros, das palavras ocas jogadas ao vento, ou à mente de quem quer ser envenenado. A comunicação tem fins muito mais nobres que esse. Um deles, simples, é, na dúvida, questionar sobre a veracidade das palavras ouvidas por aí e, já agora, calar antes de afirmarmos o “certo” sem fundamento. A sociedade agradece. 
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